Um novo estudo publicado em 30 de junho na plataforma científica bioRxiv demonstrou que retinas de olhos humanos e de porcos podem voltar a responder a estímulos luminosos até dez horas após a morte. A pesquisa foi conduzida por uma equipe de cientistas que desenvolveu um sistema inovador para restabelecer a circulação de oxigênio e nutrientes nos olhos, retardando a deterioração do tecido responsável pela captação de luz.
Embora os resultados sejam promissores, os pesquisadores ressaltam que a recuperação da visão não foi alcançada. Para que a visão ocorra, é necessária a comunicação entre a retina, o nervo óptico e o cérebro. No experimento, a equipe conseguiu preservar parte da atividade elétrica da retina em olhos mantidos fora do organismo, mas isso não implica na restauração da visão.
O estudo ainda está em fase de revisão por pares, um processo essencial que avalia a qualidade e a consistência dos resultados antes da publicação definitiva. Para a realização dos testes, os pesquisadores utilizaram olhos inteiros de porcos e de doadores humanos. As amostras humanas foram obtidas entre seis e dez horas após a morte e, em um intervalo de até 30 minutos após a retirada, foram conectadas a um dispositivo desenvolvido pela equipe, denominado Eye-in-Care-Box (ECaBox).
O ECaBox foi projetado para ser ligado à artéria oftálmica, permitindo a circulação contínua de uma solução rica em oxigênio e nutrientes, que simula as condições encontradas em um organismo vivo. A equipe monitorou a distribuição da solução para garantir que diferentes regiões do olho fossem alcançadas adequadamente.
Após a conexão dos olhos ao ECaBox, os cientistas realizaram exames eletrofisiológicos para registrar a atividade elétrica da retina quando exposta a flashes de luz. A presença de sinais elétricos indicou que parte das células retinianas continuava funcional mesmo após várias horas de morte. Em contraste, os olhos que não receberam a circulação artificial apresentaram deterioração progressiva, com perda da organização do tecido e redução da atividade celular.
Os pesquisadores observaram que nas amostras tratadas, houve uma melhor preservação da estrutura dos vasos sanguíneos, das camadas da retina e da resposta elétrica aos estímulos luminosos. Esses achados sugerem que a perda da função da retina após a morte pode ser parcialmente revertida quando o tecido é reabastecido com oxigênio e nutrientes em condições adequadas.
A técnica desenvolvida pode facilitar pesquisas sobre doenças oculares, um campo que enfrenta o desafio da rápida degradação dos tecidos após a interrupção da circulação sanguínea. Ao prolongar a preservação dos olhos, o sistema poderá contribuir para estudos de novos medicamentos, terapias gênicas e tratamentos celulares, proporcionando um modelo mais próximo da anatomia humana. Além disso, a tecnologia poderá ser útil em pesquisas voltadas para a preservação de tecidos para futuros transplantes, ampliando as possibilidades de avanços na medicina regenerativa.









