A professora Simone Araújo, de 48 anos, foi diagnosticada com câncer de mama em fevereiro de 2022, depois de perceber um nódulo duro e fixo na mama. Antes disso, ela já havia enfrentado a perda da única filha e da sogra, ambas vítimas de câncer. O medo de confirmar a doença fez com que Simone adiasse a busca por atendimento médico.
“Eu já havia pesquisado e sabia que as características poderiam ser um indício de tumor maligno. Por isso, fiquei preocupada e com receio de fazer os exames e descobrir que estava com câncer”, relatou a professora ao Metrópoles.
Após a confirmação do diagnóstico, Simone foi submetida a cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Em janeiro de 2023, iniciou a hormonioterapia com tamoxifeno, medicamento que continua utilizando diariamente. Segundo ela, os exames mais recentes indicam que a doença está sob controle, mas o acompanhamento médico permanece.
Tratamento trouxe lembranças da filha
Além dos efeitos e desafios do próprio tratamento, Simone precisou lidar com as lembranças do período em que acompanhou a filha durante a luta contra o câncer. A experiência fez com que ela se afastasse do trabalho, pois não tinha condições psicológicas de manter a rotina profissional.
“Um dos momentos mais dolorosos foi reviver todo o sofrimento da minha filha durante o tratamento contra o câncer. Enfrentar a minha própria doença trazia à tona lembranças muito dolorosas e, junto delas, o medo de que o tratamento não apresentasse o resultado esperado”, afirmou.
A coragem demonstrada pela filha e o desejo de cuidar dos pais ajudaram Simone a encontrar forças para enfrentar a nova etapa. A convivência familiar também passou a ter um significado ainda maior para a professora, que passou a valorizar mais o tempo e o afeto compartilhados.
O oncologista Cristiano Resende, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, explica que o medo pode levar algumas pessoas a adiar a investigação de alterações nas mamas. No entanto, a consulta permite esclarecer a origem do sinal e iniciar o tratamento no momento adequado.
“Mas existe algo que sempre procuro transmitir às minhas pacientes: não é o exame que faz a doença existir. Ele apenas nos permite descobrir o que está acontecendo e, se necessário, agir no momento certo”, afirmou o especialista.
Sinais precisam ser avaliados por um médico
Entre os sinais que exigem avaliação estão nódulos na mama ou na axila, retrações na pele ou no mamilo, vermelhidão persistente e secreção espontânea pelo mamilo, principalmente quando há presença de sangue. Muitas alterações são benignas, mas a recomendação é não esperar que aumentem de tamanho ou provoquem dor para procurar atendimento.
O câncer de mama ocorre quando há multiplicação desordenada de células da mama, formando um tumor. Embora seja mais frequente entre mulheres, a doença também pode ser diagnosticada em homens, que apresentam sintomas semelhantes.
De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), existem diferentes tipos de câncer de mama. Alguns apresentam crescimento rápido, enquanto outros se desenvolvem de forma lenta. A maioria dos casos tem bom prognóstico quando identificada e tratada precocemente.
A doença não tem uma causa única. Fatores ambientais, genéticos, hormonais e comportamentais podem aumentar o risco de desenvolvimento. A idade também influencia, e o câncer de mama é mais comum em pessoas com mais de 50 anos.
Apesar das possibilidades de cura quando o diagnóstico ocorre no início, o câncer de mama pode provocar impactos físicos e emocionais importantes. O tratamento pode afetar a força, os cabelos, os seios e a autoestima e, em alguns casos, levar à morte. Segundo o Inca, a doença é responsável pelo maior número de óbitos por câncer entre a população feminina brasileira.
Mamografia pode identificar alterações iniciais
Os principais sinais incluem o surgimento de caroços endurecidos, geralmente indolores, além de mudanças na pele ou no bico dos seios, saída espontânea de líquido por um dos mamilos, presença de nódulos no pescoço ou nas axilas e vermelhidão na pele da mama, que também pode adquirir aparência semelhante à casca de laranja.
O autoexame pode ajudar na identificação de alterações. A avaliação pode ser realizada em três posições: diante do espelho, em pé e deitada. Em frente ao espelho, a pessoa deve retirar a roupa e observar os seios com os braços abaixados. Depois, deve levantar os braços e verificar as mamas. Também é possível colocar as mãos apoiadas na bacia e fazer pressão para observar mudanças na superfície dos seios.
A palpação em pé pode ser feita durante o banho, com o corpo molhado e as mãos ensaboadas. Com o braço esquerdo levantado e a mão atrás da cabeça, a mama esquerda deve ser examinada com a mão direita. O procedimento deve ser repetido do lado oposto.
A palpação deve ser feita com os dedos juntos e esticados, em movimentos circulares por toda a mama, de cima para baixo. Depois, os mamilos podem ser pressionados suavemente para verificar se há saída de líquido. Deitada, a pessoa deve colocar a mão esquerda na nuca e examinar a mama esquerda com a mão direita. Em seguida, os passos devem ser repetidos no seio direito.
Mulheres com mais de 20 anos que tenham casos de câncer na família ou com mais de 40 anos sem histórico familiar devem realizar o autoexame para auxiliar na prevenção e na identificação precoce. O procedimento também pode ser feito por homens, embora o câncer de mama seja menos comum nesse grupo.
Ao identificar uma alteração, é importante procurar um médico para a realização de exames específicos, como a mamografia e análises laboratoriais. A presença de um pequeno nódulo não significa necessariamente que exista câncer, mas o crescimento ao longo do tempo ou a associação com outros sintomas exige investigação.
Como a doença pode não provocar sinais no início, a mamografia é capaz de detectar alterações antes que sejam percebidas pelo toque. Entre os achados possíveis estão as microcalcificações, pequenos depósitos de cálcio que podem representar os primeiros sinais de lesões pré-cancerígenas ou de tumores em fase muito inicial.
“Muitas vezes, essas alterações são os primeiros sinais de lesões pré-cancerígenas ou de tumores em fase extremamente inicial”, explicou Gustavo Souza, radiologista e coordenador de Radiologia do Grupo Santa.
A ultrassonografia e a ressonância magnética podem complementar a investigação, conforme as características de cada caso. Uma imagem suspeita, porém, não confirma a presença de câncer. Quando indicada, a biópsia permite analisar o tecido e esclarecer o diagnóstico. Segundo Cristiano Resende, identificar a doença precocemente aumenta as chances de cura e pode possibilitar tratamentos menos agressivos.
Tratamento varia conforme o tumor
O tratamento depende da extensão da doença e das características do tumor. Entre as opções estão cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapia biológica. Quando o câncer se espalha para outros órgãos, situação conhecida como metástase, o tratamento busca prolongar a sobrevida e preservar a qualidade de vida do paciente.
Ao compartilhar a própria experiência, Simone também destaca a importância do apoio emocional durante o tratamento. “Não precisamos ser fortes o tempo inteiro, e não estamos sozinhas nessa caminhada”, afirmou.









