Nova produção do Universo DC nos cinemas, “Cara-de-Barro” tenta combinar terror corporal, thriller de vingança e elementos de filmes de super-heróis, mas não consegue desenvolver plenamente nenhuma dessas propostas. Dirigido por James Watkins, o longa parte de uma premissa ligada ao horror e às histórias em quadrinhos, porém suaviza seus aspectos mais perturbadores e termina como uma aventura genérica, ainda que tenha o mérito de explorar um gênero pouco comum entre as adaptações da DC.
A trama acompanha Matt Hagen, um ator que tem o rosto desfigurado depois de ser atacado por um chefão do crime. Em busca de recuperar a própria aparência, ele se submete a um tratamento genético experimental. A princípio, o procedimento parece representar uma solução para suas cicatrizes. A situação, entretanto, se transforma em um pesadelo quando a carne de Hagen começa a derreter e passa a assumir diferentes formas de acordo com a vontade do personagem.
A transformação física funciona como consequência visível de uma ruptura mais profunda. À medida que perde o controle sobre o próprio corpo, Hagen também vê seus limites morais e psicológicos se desfazerem. A história se apoia, nesse aspecto, em uma tradição associada a obras como “Frankenstein” e “O Médico e o Monstro”, nas quais a monstruosidade exterior reflete conflitos internos e a dificuldade de separar o bem do mal.
Os primeiros 40 minutos são o trecho mais consistente do filme. Nesse período, a produção estabelece a tragédia de Matt Hagen e acompanha sua perda gradual da humanidade. O ator britânico Tom Rhys Harries reforça esse processo ao interpretar um homem incapaz de reconhecer a si mesmo diante do espelho. A dor, o desespero e a rejeição da própria imagem aproximam o personagem do arquétipo do monstro clássico, dando ao longa uma dimensão psicológica que depois não é explorada com a mesma força.
A escolha de “Cara-de-Barro” como uma das primeiras produções do universo comandado por James Gunn, apresentado sob o conceito de “deuses e monstros”, é compreensível. O roteiro de Mike Flanagan, conhecido por “A Maldição da Residência Hill”, demonstra a intenção de construir um exemplar de body horror, subgênero marcado por deformações, alterações corporais e imagens de carne em processo de destruição. A proposta também dialoga com o gosto de Gunn por produções de aparência mais próxima dos filmes B.
O problema está na execução. A história possui uma estrutura semelhante à de “Darkman”, de Sam Raimi, e também guarda pontos de contato com “Mulher-Gato”, protagonizado por Halle Berry. Em ambos os casos, há uma narrativa de transformação, vingança e reconstrução da identidade. “Cara-de-Barro”, no entanto, não encontra uma abordagem suficientemente particular para transformar esse esqueleto dramático em algo mais expressivo.
James Watkins, responsável também pelo remake norte-americano de “Não Fale o Mal”, conduz o material com pouca personalidade. O diretor se aproxima do body horror, mas evita levar o conceito às últimas consequências. O resultado é uma versão mais juvenil e inofensiva do gênero, distante da intensidade sugerida pela premissa. As relações entre os personagens são pouco desenvolvidas, o visual adota cores mornas e o clímax não alcança a força necessária para encerrar a trajetória de Hagen.
A presença do filme no Universo DC também cria limitações. Embora a produção tente se afastar das obras mais coloridas e tradicionais de super-heróis, a ambientação em Gotham City mantém o longa preso a uma rede de referências. A cidade inevitavelmente desperta a expectativa pela presença do Batman, que não aparece na história. Em vez de ampliar o universo apresentado, essas conexões muitas vezes desviam a atenção do conflito central.
Outro obstáculo é o fato de a versão mais grotesca de Cara-de-Barro já ter sido apresentada na série animada “Comando das Criaturas”, reduzindo parte do impacto visual que o filme poderia causar. O personagem surgiu nos quadrinhos em diferentes formas desde 1940, mas a versão mais popular — e a principal inspiração da produção — é a apresentada na série animada do Batman dos anos 1990.
Com orçamento de US$ 30 milhões, “Cara-de-Barro” representa um investimento relativamente seguro para o estúdio, já que um eventual resultado financeiro negativo teria impacto limitado sobre quem financia a produção. O longa tem o mérito de buscar alternativas à fantasia e à ficção científica predominantes no cinema de super-heróis, além de começar com uma premissa promissora. No entanto, ao evitar riscos e seguir convenções conhecidas, perde força ao longo do caminho e chega ao fim sem a contundência que sua proposta de terror corporal permitiria.







