A série “Elize: Sombras de Uma Mulher”, lançada em julho de 2026 pela Netflix, rapidamente conquistou o primeiro lugar no ranking de produções mais assistidas no Brasil. O suspense dramático retrata a trajetória de Elize Matsunaga, desde sua origem humilde até o casamento com o empresário Marcos Matsunaga, culminando no assassinato que chocou o país em 2012. Para compreender o processo de transformação de um dos casos criminais mais midiáticos do Brasil em uma obra de ficção, o portal UOL entrevistou os roteiristas Raphael Montes e Mariana Torres, que detalharam o desenvolvimento criativo, os desafios éticos e as motivações por trás da abordagem da história.
A produção busca oferecer uma nova perspectiva sobre um caso antigo, com foco na narrativa feminina e na discussão de temas atuais. Segundo Mariana Torres, a intenção foi trazer o debate para o presente, utilizando a visão da própria Elize, que narra toda a trama. Ela explica que, apesar do crime ter ocorrido em 2012, a sociedade evoluiu e os debates sobre violência e relacionamentos tóxicos também mudaram. Assim, a série pretende explorar essas questões sob o olhar de uma mulher que enfrentou uma trajetória marcada por dificuldades, desde uma infância traumática em uma cidade pequena até a entrada no universo empresarial e, posteriormente, no crime.
Raphael Montes, conhecido por trabalhos no gênero true crime, como “Bom Dia, Verônica” e produções relacionadas ao caso Richthofen, destacou que o objetivo principal foi entrar na mente de Elize, equilibrando suas dualidades. Ele ressaltou a importância de evitar respostas simplistas ou a romantização dos acontecimentos, buscando apresentar a complexidade da personagem. Segundo o roteirista, é fundamental mostrar a trajetória de uma mulher que, apesar de sua origem humilde, cometeu um crime brutal, esquartejou o marido, despistou a polícia e mentiu para a família — aspectos que reforçam a gravidade da narrativa.
A atuação da atriz Lorena Comparato, que interpreta Elize, foi destacada pelos roteiristas como essencial para transmitir a ambiguidade da personagem. Montes comentou que Comparato buscou imprimir nuances em sua performance, demonstrando, por exemplo, uma raiva contida no olhar em cenas de vulnerabilidade e uma frieza manipuladora em momentos de maior controle emocional. Essa abordagem busca manter a intensidade e a seriedade do caso, mesmo diante de uma crescente empatia do público nas redes sociais ao longo do tempo.
Quanto ao contato com Elize Matsunaga, Raphael Montes foi categórico ao afirmar que não houve qualquer interação com a criminosa. A pesquisa para a produção foi baseada exclusivamente nos autos do processo, depoimentos e materiais disponíveis, já que a Elize atual é uma pessoa diferente daquela que cometeu o crime. A equipe contou com uma pesquisadora dedicada para preencher lacunas e esclarecer detalhes, como a demora de dez dias da polícia em verificar as câmeras do elevador do prédio do casal. Essa demora, explicada pelo contexto corporativo da época, foi inicialmente atribuída a uma hipótese de sequestro, uma vez que a venda da empresa de Marcos estava prestes a acontecer, o que atrasou a percepção do homicídio dentro de casa.
A abordagem da série difere de documentários e outras produções do gênero true crime, como o próprio documentário sobre o caso na Netflix e a série “Tremembé”. Os roteiristas afirmam que “Elize: Sombras de Uma Mulher” navega por um formato de thriller psicológico, que combina elementos de melodrama e reviravoltas dramáticas. Essa mistura de gêneros foi considerada fundamental para explorar a dinâmica do casal e a psicologia por trás do crime de forma mais aprofundada, permitindo uma imersão na intimidade dos personagens que o formato documental não consegue oferecer. Assim, a série busca equilibrar a narrativa de uma história real com uma abordagem ficcional que privilegia a dramatização e a análise psicológica, mantendo o foco na complexidade moral e emocional envolvida no caso.








