Ao longo da história, o ser humano demonstra um interesse constante por histórias de terror e experiências assustadoras, uma preferência que remonta às origens da narrativa e do entretenimento. Desde as pinturas rupestres no Egito, datadas de aproximadamente 7.000 anos atrás, até as obras literárias e audiovisuais contemporâneas, o fascínio pelo medo parece ser uma característica intrínseca à nossa espécie. Essa atração por emoções negativas, muitas vezes associadas ao susto, revela uma complexa relação entre o medo e o prazer, que tem sido objeto de estudos científicos recentes.
Na Roma Antiga, uma narrativa do “Banquete de Trimalquião”, fragmento do clássico “Satyricon” de Petrônio, datado por volta do ano 60 d.C., relata a história de Niceros, um ex-escravo, que, numa noite de Lua cheia, ao caminhar com um soldado até a casa de sua amante Melissa, presencia uma transformação sobrenatural. O soldado, ao passarem por um cemitério, se transforma em lobo e, disfarçado sob a pele do animal, mata várias cabeças de gado antes de ser ferido por um lanceiro e fugir. No dia seguinte, Niceros encontra o soldado na sua casa, com o pescoço ferido, sendo tratado por um médico. Essa narrativa ilustra uma das primeiras manifestações do uso do medo como entretenimento, uma prática que perdura até os dias atuais.
Ao longo dos séculos, o consumo de histórias de terror e atividades assustadoras permaneceu popular, evidenciado pelo sucesso duradouro de filmes de horror, parques de diversão com atrações radicais, casas mal-assombradas, festas de Halloween e até histórias infantis que retratam lobos e filhos abandonados na floresta. Apesar de o medo ser uma emoção inicialmente considerada negativa, o seu consumo recreativo indica que os seres humanos têm uma propensão a buscar experiências que provoquem esse sentimento, mesmo que de forma controlada.
Pesquisas recentes têm aprofundado o entendimento do impacto do medo no cérebro. Na década de 2010, a socióloga Margee Kerr realizou estudos em uma das atrações mais assustadoras do mundo, denominada “The Basement”, uma instalação projetada para reunir os maiores medos dos participantes, incluindo desorientação, sensação de morte e restrição de liberdade. Os resultados indicaram que, após a experiência, os participantes saíam mais tranquilos do que quando entraram. As ondas cerebrais analisadas por meio de eletroencefalogramas mostraram que, quanto mais estressadas estavam antes, maior era o efeito calmante obtido, com padrões cerebrais semelhantes aos observados durante sessões de meditação.
Mais recentemente, cientistas chineses investigaram os efeitos do medo no cérebro, utilizando vídeos de terror para estimular diferentes regiões cerebrais. Observou-se que, em indivíduos com sintomas depressivos, havia uma hiperconectividade entre a rede de modo padrão, responsável por atividades de repouso, devaneio e autorreflexão, e a rede de saliência, que detecta estímulos importantes e direciona a atenção. Essa hiperconectividade está relacionada à ruminação e ao foco negativo sobre si mesmo, aspectos comuns na depressão. Curiosamente, após a experiência de susto, essa hiperconectividade era temporariamente normalizada, o que explicaria a sensação de alívio e melhora do humor relatada pelos participantes.
Esses estudos reforçam a ideia de que o medo, quando experimentado de forma controlada, pode ter efeitos positivos no funcionamento cerebral, ajudando a regular emoções negativas e promover uma sensação de bem-estar temporária. Apesar de muitas pessoas evitarem experiências assustadoras por considerarem a realidade já suficientemente ameaçadora, a possibilidade de enfrentar o medo no mundo fictício parece fortalecer a nossa resistência às ameaças reais, tornando-se uma ferramenta de autoconhecimento e fortalecimento emocional.








