O Estado de Minas Gerais reconheceu oficialmente, nesta quinta-feira (22/10), a produção artesanal de cachaça de alambique e as expressões culturais do samba como patrimônios imateriais do território estadual. Além disso, foi aprovado o tombamento da Casa de Dona Beja, localizada em Araxá, no Alto Paranaíba, consolidando a importância histórica e cultural do imóvel para a cidade e a região. Essas decisões foram tomadas pelo Conselho Estadual de Patrimônio Cultural (Conep), após análise e deliberação do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG).
A formalização do reconhecimento da cachaça artesanal tem suas raízes em estudos iniciados em 2004 pelo Iepha, que catalogaram alambiques localizados em seis cidades mineiras: Salinas, Januária, Caeté, Paraopeba, Montes Claros e Guaraciaba. Atualmente, a Emater–MG informa que Minas possui 630 alambiques registrados oficialmente junto ao governo estadual. O relatório apresentado ao Conep propõe políticas de salvaguarda para proteger os métodos tradicionais de produção, valorizando a cultura local e ampliando a visibilidade dos produtores, incluindo aqueles que ainda não possuem cadastro formal. Segundo a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo, Minas Gerais responde por cerca de 13,5 milhões de litros de cachaça produzidos anualmente, o que reforça a relevância econômica e cultural do produto.
A secretária adjunta de Cultura e Turismo, Josiane de Souza, destacou que o reconhecimento oficial deve contribuir para a valorização da bebida e de suas tradições, além de promover a inclusão social de famílias que vivem da produção artesanal. Ela ressaltou que o processo produtivo, que envolve desde o cultivo da cana-de-açúcar até a destilação, passa a ser protegido e respeitado, inclusive diante de inovações e evoluções tecnológicas. Para Sara Regina Santana Santos, produtora de cachaça há mais de seis décadas na cidade de Guaraciaba, o reconhecimento é uma vitória que evidencia a importância de muitas famílias envolvidas na cadeia produtiva, além de contribuir para a mudança de percepção social sobre a bebida. Ela afirma que a valorização deve ajudar a combater estigmas históricos, promovendo a degustação consciente e o resgate cultural da cachaça.
Durante o anúncio, o secretário Leônidas Oliveira comparou a cachaça ao Queijo Minas Artesanal, destacando a importância do reconhecimento para compor o patrimônio cultural do estado. Ele também revelou planos de buscar o reconhecimento nacional e internacional para a bebida, reforçando sua relevância na gastronomia e na história de Minas Gerais. O reconhecimento do samba como patrimônio imaterial também foi aprovado na mesma reunião. A iniciativa teve início há dois anos, quando o Coletivo Sambista Mestre Conga solicitou formalização ao Iepha. Atualmente, Minas conta com 246 grupos de samba cadastrados, refletindo a importância do ritmo na cultura local.
Raimundo Nonato da Silva, coordenador do Mestre Conga, celebrou a conquista, destacando a trajetória de resistência do samba, que foi marginalizado por décadas e chegou a ser perseguido durante períodos de repressão política. Segundo ele, o reconhecimento como patrimônio cultural é uma vitória que valoriza a história e a força da cultura afro-mineira, além de promover a preservação e transmissão dos saberes às novas gerações. A secretária de Cultura e Turismo, Josiane de Souza, reforçou que o reconhecimento visa dar maior visibilidade às contribuições das comunidades negras para a cultura de Minas, fortalecendo o papel dos sambistas e das velhas guardas na manutenção dessa expressão cultural.
Outro destaque da reunião foi o tombamento da Casa de Dona Beja, edifício construído entre as décadas de 1820 e 1830, em Araxá. A propriedade, que pertenceu à personagem histórica Anna Jacintha de São José, conhecida como Dona Beja, possui grande valor simbólico e social para a cidade, sendo um marco na história local. Após uma tentativa de demolição em 2014, interrompida por ações do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o Conep decidiu pelo tombamento do imóvel, garantindo a preservação de suas características arquitetônicas originais. A edificação, que já passou por diferentes usos ao longo do tempo, agora poderá receber ações de restauração e revitalização, com o objetivo de manter seu valor histórico e promover seu uso cultural, mediante apoio do proprietário. A gerente de Patrimônio Cultural Material do Iepha, Angela Dolabela Canfora, destacou que o tombamento abre possibilidades para a implementação de projetos de conservação e uso sustentável, fortalecendo o patrimônio de Araxá e de Minas Gerais como um todo.








