Os chamados cancelamentos nas redes sociais continuam mobilizando críticas, julgamentos coletivos e disputas de reputação, mas deixaram de representar, em muitos casos, uma sentença definitiva para artistas e influenciadores. Especialistas em comunicação afirmam que essas mobilizações se tornaram mais fragmentadas, aceleradas e influenciadas pela economia da atenção, o que reduz a duração e, frequentemente, o impacto dos episódios.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em fevereiro de 2021, quando a cantora Karol Conká foi eliminada do Big Brother Brasil 21 com 99,17% dos votos, a maior rejeição da história do reality show. Depois de deixar o programa, a artista afirmou que familiares passaram a receber ameaças. O episódio foi associado a uma onda intensa de críticas e teve consequências amplas para sua imagem pública.
Cinco anos depois, em julho de 2026, os ex-BBBs Viih Tube e Eliezer se tornaram alvos de críticas e de uma ação do Ministério Público do Trabalho (MPT) após promoverem uma competição entre empregados domésticos. O reality show “As Patroas” foi retirado do ar depois da repercussão negativa e de um acordo firmado com o órgão. Apesar disso, o casal não registrou perdas expressivas em contratos, credibilidade ou presença pública. Três meses após o episódio, Viih Tube anunciou um curso voltado a criadores de conteúdo.
Para Carol Govari, doutora em comunicação e pesquisadora do tema, a menor duração dos episódios não significa que o cancelamento tenha perdido força. Segundo ela, o fenômeno passou a funcionar de forma mais distribuída e veloz, com participação de perfis de fofoca, influenciadores, fandoms e outros grupos que transformam controvérsias em engajamento.
“Talvez esteja enfraquecida a ideia de cancelamento como uma sentença definitiva, capaz de apagar uma pessoa da vida pública, mas continuam muito presentes as disputas de reputação, os julgamentos coletivos, a intimidação e a pressão pública”, afirma Govari.
O termo “cultura do cancelamento” foi eleito expressão do ano pelo dicionário australiano Macquarie em 2019. No ano seguinte, uma pesquisa da YouGov nos Estados Unidos apontou que metade dos entrevistados, ou 50%, dizia já ter “cancelado” alguém.
Maiara Orlandini, também doutora em comunicação, relaciona a expansão do fenômeno ao crescimento da influência digital e às mudanças na forma como a sociedade se conecta à internet. Desde 2022, usuários podem obter uma conta verificada no X mediante pagamento. Em 2023, o Instagram adotou modelo semelhante. Antes, a certificação era associada principalmente a figuras públicas.
Orlandini observa que, no início dos anos 2000, poucas pessoas exerciam influência digital em larga escala. Naquele período, mobilizações políticas realizadas na internet ainda eram frequentemente analisadas separadamente das manifestações presenciais, porque a sociedade era menos conectada.
Maior conexão não significa atenção concentrada
Em 2025, 90,5% dos brasileiros com 10 anos ou mais usaram a internet, o equivalente a 168,7 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O percentual foi o maior da série histórica. Ainda assim, a percepção de que os linchamentos virtuais perderam intensidade pode estar ligada à forma como os usuários passaram a se relacionar com as plataformas.
Durante a pandemia de Covid-19, o tempo diário de exposição dos brasileiros às telas aumentou de 6,5 para 10,5 horas, de acordo com uma pesquisa realizada em 2020 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para a biblioteconomista Dulce Hirli, que dedicou o mestrado ao tema, a retomada da rotina após o período mais intenso de isolamento social também contribuiu para a redução da permanência dos cancelamentos no centro da atenção pública.
Mesmo quando um episódio perde espaço, porém, seus registros podem permanecer disponíveis. Orlandini define essas marcas como “rastros digitais eternizados”. Publicações antigas podem voltar a circular anos depois e provocar novas críticas.
Foi o que ocorreu com MC Livinho. Após uma apresentação no programa Tiny Desk, em setembro de 2026, voltou a repercutir nas redes sociais uma acusação de racismo contra uma dançarina, feita em 2020. Também foram mencionadas acusações de transfobia em comentários publicados na internet. O caso mostrou como controvérsias antigas podem ser recuperadas mesmo depois de um período de aparente esquecimento.
Uma pesquisa da YouGov divulgada em 2025 revelou que 51% dos americanos consideravam que a cultura do cancelamento havia ido longe demais. Para os especialistas, a velocidade com que esses episódios surgem e desaparecem está relacionada à economia da atenção: como o interesse do público é limitado, diferentes polêmicas disputam simultaneamente o espaço nas plataformas.
Govari afirma que houve uma “rotinização do cancelamento”. A expressão passou a ser usada para descrever situações muito distintas, desde denúncias graves até controvérsias que duram apenas algumas horas. Essa ampliação de significado pode contribuir para a sensação de banalização do fenômeno.
Com várias pessoas sendo alvo de críticas ao mesmo tempo e por razões diferentes, a atenção tende a migrar rapidamente. Na avaliação de Orlandini, um indivíduo pode estar no centro de uma mobilização em um dia e ser substituído por outro no dia seguinte, o que torna cada vez mais difícil manter o interesse público concentrado em um único caso por muito tempo.







