O mês de outubro se consolidou no Brasil como um período dedicado às histórias de horror, suspense e sobrenatural. Com a aproximação do Halloween, editoras, produtoras e empresas ligadas à cultura ampliam a oferta de obras do gênero, que inclui lançamentos para diferentes faixas etárias. Entre as produções previstas estão as séries Carrie, de Mike Flanagan, no Prime Video, e Crystal Lake, de Brad Caleb Kane, na Universal+; os filmes A outra mamãe, de Rob Savage, Dentro da baleia, de Brian Duffield, e Cara de barro, de James Watkins, nos cinemas; além dos livros Jovens malditos, de M.A. Bennett, Não entre no jardim, de C.G. Andrews, e A possessão de Alba Díaz, de Isabel Cañas.
Também estão entre as novidades literárias do período os títulos de Uketsu publicados pelo selo Suma, da Companhia das Letras: Mapas estranhos e a versão em quadrinhos de Imagens estranhas. Em meio a tantas opções, cinco livros se destacam por diferentes formas de abordar o horror, do relato inspirado em uma figura histórica a narrativas de folk horror, investigação policial e antologias contemporâneas.
A condessa ensanguentada, de Valentine Penrose
A húngara Erszébet Báthory (1560-1614) entrou para a história como uma das figuras mais aterradoras de seu tempo. Associada a uma obsessão pela juventude e pela beleza, ela teria torturado e matado centenas de jovens mulheres, utilizando métodos especialmente cruéis para provocar sofrimento.
A personagem despertou o interesse de escritoras como a argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972) e a francesa Valentine Penrose (1898-1978). Publicado no Brasil pela editora Ercolano, A condessa ensanguentada é uma biografia imaginada de Báthory, construída a partir de documentos, mas também marcada pela liberdade poética da autora.
A obra poderia ser aproximada do true crime, já que parte de registros sobre a condessa. No entanto, a distância temporal dos acontecimentos e a escassez de documentos abrem espaço para a imaginação de Penrose, que também foi uma poeta de grande talento. O resultado ultrapassa o perfil de uma assassina e transforma Báthory em uma figura noturna, associada à magia e à barbárie.
Caramelo salgado, de Santiago Nazarian
Conhecido por seus trabalhos ligados ao horror, o paulistano Santiago Nazarian ganhou destaque com romances como Biofobia, publicado pela Record, e Neve negra, da Companhia das Letras. Ao longo da carreira, também escreveu obras infantis, como A festa do dragão morto, e se aventurou pelo romance histórico em Fé no inferno, sobre o genocídio armênio.
Publicado pela Rua do Sabão, Caramelo salgado representa uma retomada do universo do horror e funciona como uma declaração de amor ao Halloween. A história se passa no fim dos anos 1980, em uma cidade serrana do estado de São Paulo. Aos nove anos, Gabriel se muda com a mãe para Trevo da Serra. Introspectivo e pouco comunicativo, ele é fascinado por filmes de horror, jogos de Atari e pelo Dia das Bruxas.
Com o incentivo do primo Pedro, mais expansivo e falante, Gabriel decide reproduzir o Halloween das histórias estrangeiras que admira. Fantasiado, passa a pedir doces nas casas da região. Na segunda parte do romance, os vizinhos assumem a aparência de monstros clássicos do horror, enquanto questões como a ausência do pai, a superproteção materna e o bullying escolar ganham espaço.
O livro combina a doçura da memória de uma infância aparentemente distante com o amargor dos traumas que conduzem à vida adulta. Em vez de tratar o gênero apenas como fonte de medo, Nazarian apresenta o horror como um espaço de pertencimento e acolhimento.
Aranha movediça, de Moacir Fio
Romance de estreia do cearense Moacir Fio, Aranha movediça foi publicado pela Moinhos e vem ganhando destaque em premiações literárias. A estrutura do livro acompanha diferentes linhas narrativas que avançam em paralelo, como os fios de uma teia. Duas delas se passam no presente; a terceira está situada em meados do século 18. Aos poucos, os relatos se cruzam.
O centro da trama é a morte de João Valdenir, conhecido como Jota do Lixo, figura importante da cena punk de Fortaleza nos anos 1980. Na linha conduzida pela jornalista Alessandra Moretti, um podcast investigativo busca esclarecer o que parece ter sido um assassinato. A apuração sobre o passado, porém, revela novos mistérios, inclusive alguns que ultrapassam os limites do mundo conhecido.
O formato do podcast é um dos principais acertos do romance, pois permite apresentar informações detalhadas sobre a cena underground de Fortaleza sem comprometer o andamento da narrativa. Os personagens aparecem cercados pelas incertezas da investigação, mas são descritos com riqueza de detalhes.
Já o núcleo situado no século 18 introduz com mais força o horror sobrenatural. A presença de uma personagem misteriosa chamada Moça amplia a dimensão da história e dá destaque a Cococi, cidade fantasma localizada no Sertão dos Inhamuns, no interior do Ceará. A obra combina investigação policial, experimentação narrativa e elementos sobrenaturais, enquanto posiciona Moacir Fio entre os novos nomes da literatura brasileira de horror.
O tenebroso brilho do sol, de Ana Paula Maia
Em O tenebroso brilho do sol, publicado pela Companhia das Letras, Ana Paula Maia apresenta seu trabalho mais diretamente ligado ao horror. O romance acompanha Eliote, único sobrevivente de uma tragédia provocada pelo transbordamento de uma represa, que destruiu o vilarejo onde ele vivia com a família.
Isolado em uma região coberta por lama, Eliote procura os corpos dos filhos pequenos. Durante a busca, veste e espalha manequins pelo local. A história é ampliada por digressões que revelam o passado do protagonista e do vilarejo, incluindo sua relação difícil com o irmão, morto ainda jovem, e o ritual funerário conhecido como “coberta da alma”, resgatado pela autora de uma tradição açoriana.
Também fazem parte da narrativa personagens enigmáticas, como a senhora Malva. O livro preserva características reconhecidas da escrita de Ana Paula Maia: a extensão breve, a linguagem seca e concisa, os ambientes rurais e personagens silenciosos e ensimesmados. Diferentemente de Enterre seus mortos e Assim na terra como embaixo da terra, porém, a autora utiliza o sobrenatural e uma atmosfera mais agourenta.
Eliote também se diferencia de protagonistas como Edgar Wilson e Bronco Gil. Embora seja um homem embrutecido pelas circunstâncias, ele tenta preservar a pouca vida que lhe resta e demonstra alguma sensibilidade. Essa dimensão torna a conexão com o personagem mais intensa e reforça o impacto do desfecho do romance, marcado pelo folk horror.
Eles estão aqui, antologia organizada por Cristhiano Aguiar
A antologia Eles estão aqui – 13 contos contemporâneos do horror brasileiro, publicada pela editora Autêntica, reúne textos inéditos de 13 escritoras e escritores de diferentes regiões do país. Organizado por Cristhiano Aguiar, autor de Gótico nordestino e do aguardado romance A quimera, o volume foi concebido para apresentar diferentes manifestações do horror produzido no Brasil.
Entre os autores selecionados estão Bruno Ribeiro, Verena Cavalcante, Márcio Benjamin e Cláudia Lemes, além de outros nomes ligados ao gênero. Na apresentação, Aguiar define o horror como uma ferramenta de catalogação da vulnerabilidade humana e como a transformação da fragilidade em imaginação.
A proposta da coletânea é tratar o horror não apenas como entretenimento, embora a diversão também esteja presente, mas como uma forma de observar conflitos, medos e limitações humanas. Nesse sentido, a antologia amplia o panorama da produção contemporânea brasileira dedicada ao gênero.








