O derretimento de geleiras nas Dolomitas, no norte da Itália, revelou mais de 250 artefatos explosivos deixados durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). Os materiais permaneceram escondidos sob o gelo por mais de um século e ainda podem representar risco, o que levou o Exército italiano a organizar operações de localização, remoção e neutralização nas áreas montanhosas de Trentino-Alto Ádige.
Durante o verão europeu deste ano, especialistas militares desativaram mais de 200 artefatos em apenas duas semanas, segundo um comunicado oficial. Entre os itens encontrados estavam projéteis de artilharia de diferentes calibres, granadas de mão e outros armamentos produzidos na Itália e na Áustria.
As ações ocorreram em regiões de grande altitude, incluindo Carè Alto e Vedretta di Lares, na área de Adamello-Brenta. Também foram realizadas operações em Val Martello e Stelvio, além das proximidades da geleira Livrio. O trabalho exige equipes especializadas e apoio logístico devido às condições do terreno e à dificuldade de acesso aos pontos onde os objetos são expostos pelo recuo do gelo.
Artefatos são vestígios da Guerra Branca
Os armamentos encontrados são considerados remanescentes da chamada “Guerra Branca”, conjunto de confrontos travados entre tropas italianas e austro-húngaras nos Alpes entre 1915 e 1918. Além dos combates, os militares enfrentavam um ambiente de extrema dificuldade, marcado por avalanches, deslizamentos de terra e temperaturas congelantes.
As estimativas indicam que entre 150 mil e 180 mil militares morreram durante esses confrontos. Apenas aproximadamente um terço das mortes teria ocorrido diretamente em combate. A maior parte das vítimas perdeu a vida em consequência das condições adversas das montanhas, que dificultavam a sobrevivência e as operações militares.
Derretimento expõe objetos preservados por décadas
O reaparecimento dos explosivos está diretamente relacionado ao recuo acelerado das geleiras, processo impulsionado pelo aquecimento global. À medida que as camadas de gelo diminuem, materiais que ficaram preservados por décadas ou séculos voltam a aparecer na superfície.
No fim da década de 1950, as Dolomitas tinham 33 geleiras, que ocupavam uma área conjunta de aproximadamente 8 quilômetros quadrados. Atualmente, restam apenas 12. Entre 1980 e 2023, a região perdeu cerca de 56% de sua área glacial, e existe a possibilidade de que essas formações desapareçam nas próximas décadas.
As temperaturas elevadas registradas no verão europeu deste ano podem ter acelerado o processo. Em Trentino, a estação foi a mais quente já registrada. No Tirol do Sul, também chamado de Alto Ádige, as temperaturas igualaram o recorde estabelecido em 2003.
Segundo o Gizmodo, o fenômeno de exposição de vestígios militares não é recente. Desde a década de 1990, o derretimento das geleiras revelou armas, abrigos militares, trenós, cartas, diários e até corpos de soldados que permaneceram preservados no gelo.
“É, em grande parte, uma consequência do aquecimento global”, afirmou Stefano Morosini, professor da Universidade de Bergamo e coordenador de projetos de patrimônio histórico no Parque Nacional Stelvio, em entrevista ao The Guardian.
Morosini explicou que, nos últimos anos, artefatos perigosos passaram a surgir ao final de cada verão em quantidades cada vez maiores. Muitos permaneceram congelados por mais de 100 anos sem explodir, mas continuam potencialmente ativos e podem ameaçar turistas, alpinistas e outras pessoas que circulam pelas montanhas.
Exército italiano atua na neutralização dos explosivos
Embora tenham importância histórica, os artefatos não podem ser tratados apenas como peças de museu. As equipes responsáveis consideram que os explosivos ainda podem funcionar. Por isso, especialistas do 2º Regimento de Engenharia da Brigada Alpina “Julia” realizam operações durante os meses de verão, quando as condições climáticas permitem intervenções mais eficazes.
As ações contam com o apoio de helicópteros, profissionais de resgate alpino e órgãos locais de emergência. As autoridades recomendam que qualquer pessoa que encontre um possível artefato explosivo não toque nem tente removê-lo. A orientação é comunicar imediatamente a descoberta às autoridades locais.
Além do risco, os materiais encontrados também contribuem para preservar a memória dos conflitos ocorridos nos Alpes. Os vestígios recuperados deverão integrar o acervo de um museu dedicado à Guerra Branca, com inauguração prevista para junho de 2027, na cidade italiana de Bormio.









