Os destroços do navio mercante a vapor Cornwallis, afundado durante a Segunda Guerra Mundial, foram localizados em 11 de julho de 2026, mais de oito décadas depois do ataque. A embarcação foi atingida por um torpedo lançado pelo submarino alemão U-1230 na costa do Maine, nos Estados Unidos. A identificação encerrou uma busca iniciada em 2019 pela Equipe de Exploração Nomad, que utilizou mergulhadores e equipamentos de alta tecnologia para investigar o fundo do oceano na região de Mount Desert.
O Cornwallis havia deixado Barbados, no Caribe, em novembro de 1944. O navio carregava açúcar e melaço e seguia para Saint John, no Canadá. A viagem terminou na manhã de 3 de dezembro, quando um torpedo atingiu a embarcação nas proximidades do litoral do Maine.
O projétil acertou uma área próxima ao porão de carga dianteiro e causou uma explosão. Embora não tenha ocorrido incêndio, os danos foram suficientes para fazer o navio desaparecer sob a água em menos de dez minutos. Dos 48 tripulantes que estavam a bordo, somente seis conseguiram abandonar a embarcação com vida. Um deles morreu mais tarde por hipotermia. Os cinco sobreviventes restantes foram resgatados pela Marinha dos Estados Unidos e ajudaram a esclarecer as circunstâncias do naufrágio.
Submarino havia desembarcado agentes alemães no Maine
O ataque ao Cornwallis ocorreu no contexto de uma operação de espionagem alemã em território norte-americano. Sob o comando de Hans Hilbig, o U-1230 não tinha como missão principal afundar o navio. Quatro dias antes, em 29 de novembro de 1944, a unidade havia desembarcado dois agentes alemães na costa do Maine.
Erich Gimpel e William Colepaugh chegaram a Hancock e depois seguiram para Nova York. A tarefa da dupla era reunir informações sobre as operações dos Estados Unidos e, eventualmente, promover atos de sabotagem. O deslocamento do submarino após o ataque ao Cornwallis contribuiu para que autoridades norte-americanas levantassem a hipótese de que agentes inimigos tivessem sido enviados ao país.
Dois moradores de Hancock disseram ter visto os homens na região. A operação foi descoberta em Nova York depois que Colepaugh revelou o plano a um amigo. O relato chegou ao FBI, que localizou Gimpel dias depois. Inicialmente, os dois foram condenados à morte, mas as sentenças acabaram convertidas em prisão perpétua.
O U-1230 permaneceu ativo até o fim da guerra. Em dezembro de 1945, já após o conflito, o submarino foi afundado na costa do Reino Unido.
Localização exigiu sete anos de buscas
A equipe Nomad enfrentou dificuldades para encontrar o Cornwallis porque não existia uma coordenada precisa para o local do naufrágio. Os pesquisadores mapearam o leito marinho com sonar de varredura lateral e analisaram diferentes áreas em busca de sinais compatíveis com uma embarcação de grande porte.
Durante uma das operações, uma alteração nos registros do sensor quase não foi percebida. A análise posterior, porém, mostrou que o sinal poderia indicar a presença dos destroços. A confirmação dependia de uma inspeção direta, realizada em vários mergulhos por profissionais.
As dimensões da estrutura encontrada também ajudaram na identificação. O Cornwallis tinha 122 metros de comprimento e pesava 5.458 toneladas. A equipe só confirmou que a anomalia correspondia ao navio depois de examinar os restos submersos.
O trabalho ocorreu em uma área de condições adversas, com águas congelantes, correntes provocadas por marés fortes, mudanças frequentes no clima e neblina. O acesso ao ponto também impunha desafios logísticos. Jeff Goodreau, integrante da equipe, afirmou ao jornal local Portland Press Herald que a viagem podia levar cinco horas a partir de Portsmouth. Outra alternativa era transportar uma embarcação em um reboque até a região da operação.
Para Danny Allan, também integrante da Equipe de Exploração Nomad, a descoberta representa o resultado de anos de insistência e volta a chamar atenção para uma tragédia que permaneceu praticamente esquecida. Allan relatou ter vivido sentimentos contraditórios ao se tornar, oito décadas depois do naufrágio, a primeira pessoa a ver e tocar os restos do Cornwallis. Segundo ele, o momento foi emocionante, mas também profundamente marcante por se tratar de um túmulo no qual 43 pessoas morreram.








