Homens com apneia obstrutiva do sono podem apresentar melhora na motilidade dos espermatozoides após o tratamento da condição, indica um estudo conduzido pelo Hospital Universitário de Hong Kong-Shenzhen, na China. A pesquisa também identificou menor volume de sêmen entre os participantes diagnosticados com o distúrbio respiratório, em comparação com homens saudáveis.
A apneia obstrutiva do sono é caracterizada pelo bloqueio recorrente das vias aéreas durante o período de descanso. Essas interrupções fazem com que a respiração seja suspensa temporariamente e podem reduzir a oxigenação do organismo ao longo da noite. Embora o problema seja normalmente associado às funções respiratória e cerebral, o estudo avaliou se a falta de oxigênio também poderia afetar os testículos e a qualidade do esperma.
Os resultados foram publicados na edição de janeiro de 2027 da revista Sleep Medicine, que ainda está em fase parcial de publicação. Para realizar a análise, os pesquisadores acompanharam 72 homens entre 18 e 50 anos que haviam recebido diagnóstico de apneia obstrutiva do sono. O grupo foi comparado com 22 indivíduos saudáveis, sem o distúrbio.
Participantes com apneia tiveram menor volume de sêmen
Na avaliação dos parâmetros seminais, os homens com apneia apresentaram volume de sêmen significativamente inferior ao observado no grupo de controle. De acordo com os dados, essa diferença não dependia da função erétil dos participantes. Isso indica que os efeitos encontrados estavam relacionados a características do sêmen e dos espermatozoides, e não exclusivamente ao desempenho sexual.
Outro resultado observado foi a redução da motilidade espermática. O termo corresponde à capacidade de os espermatozoides se deslocarem e é considerado um dos aspectos relevantes para a fertilidade masculina. Entre os homens com apneia, houve aproximadamente 10% menos espermatozoides com motilidade progressiva, classificação atribuída às células capazes de avançar em linha ou em direção à frente.
A pesquisa também apontou uma redução próxima de 10% na quantidade de espermatozoides com capacidade geral de movimento. Portanto, as alterações não se limitaram apenas à movimentação progressiva, mas envolveram o desempenho de deslocamento das células de forma mais ampla.
Uso do aparelho elevou a motilidade após um mês
Dos participantes diagnosticados com apneia, 25 começaram a utilizar regularmente um aparelho indicado para tratar o distúrbio. Para serem considerados usuários regulares na análise, eles precisaram utilizar o dispositivo durante pelo menos quatro horas por noite e em cinco ou mais noites.
Após um mês de tratamento, a motilidade progressiva dos homens que mantiveram o uso do aparelho aumentou para uma faixa entre 40% e 45%. O resultado sugere que o controle das interrupções respiratórias e da queda de oxigenação durante o sono pode estar relacionado a uma melhora em um dos principais indicadores da qualidade dos espermatozoides.
Segundo os pesquisadores, a baixa oxigenação cerebral durante a noite e os distúrbios respiratórios do sono podem interferir na movimentação dos espermatozoides e em outros aspectos do funcionamento dos testículos. A hipótese apresentada é que a repetição desses episódios ao longo do período de descanso tenha efeitos sobre a função testicular.
“A avaliação de distúrbios respiratórios do sono pode ser considerada uma avaliação exploratória em homens que apresentam anormalidades seminais inexplicáveis”, escreveram os autores. A recomendação se refere a situações em que são identificadas alterações na composição ou no funcionamento do sêmen e dos espermatozoides sem uma causa definida.
Estudo tem limitações e não confirma causa direta
Apesar dos resultados, os próprios dados devem ser interpretados com cautela. A pesquisa avaliou apenas 94 homens ao todo — 72 com apneia obstrutiva do sono e 22 no grupo de controle. O número reduzido de participantes limita a aplicação das conclusões à população masculina em geral.
Outro fator considerado pelos pesquisadores foi a dificuldade de adesão ao tratamento. O aparelho utilizado pode provocar desconforto, o que contribuiu para a redução do uso ao longo do tempo. Essa limitação dificultou uma avaliação mais precisa sobre a efetividade da intervenção e sobre a manutenção dos benefícios observados depois do primeiro mês.
Os autores defendem a realização de novas pesquisas, com mais voluntários e maior regularidade no uso do tratamento. Esses estudos poderão esclarecer melhor a relação entre a apneia obstrutiva do sono e a qualidade espermática. Até agora, os resultados apontam uma associação entre os fatores, mas não demonstram, de forma isolada, que a apneia seja a causa direta das alterações encontradas no sêmen.








