Mulheres adultas podem passar até quatro anos a mais do que homens até obter o diagnóstico correto do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). O dado é de uma pesquisa populacional realizada na Suécia e publicada no Journal of Child Psychology and Psychiatry, que acompanhou mais de 85 mil pessoas. De acordo com o estudo, a demora para reconhecer o transtorno está relacionada a índices maiores de ansiedade e depressão, além da utilização prolongada de serviços de saúde antes da confirmação do quadro.
A diferença entre homens e mulheres começa a aparecer ainda na infância. Entre os meninos, os sinais do TDAH costumam ser mais facilmente identificados por causa de manifestações como agitação, hiperatividade motora e comportamentos que interferem de maneira direta na rotina escolar ou familiar. Quando essas características chamam a atenção de pais e professores, aumentam também as possibilidades de encaminhamento para uma avaliação especializada.
Nas meninas, entretanto, o transtorno frequentemente se manifesta com predominância de sintomas de desatenção. Problemas para manter a concentração, organizar compromissos e acompanhar as atividades podem não provocar mudanças suficientemente visíveis no ambiente escolar. Por isso, as dificuldades podem permanecer sem reconhecimento por anos, inclusive durante a adolescência.
Em muitos casos, o sofrimento não se expressa por atitudes consideradas perturbadoras, mas por manifestações internas, como ansiedade, isolamento social e baixa autoestima. A ausência de comportamentos que alterem a dinâmica da sala de aula ou da família reduz a possibilidade de que o TDAH seja percebido precocemente. Com isso, a mulher pode chegar à vida adulta sem compreender a origem dos obstáculos enfrentados no cotidiano.
Outro elemento associado ao diagnóstico tardio é a camuflagem social. Desde cedo, muitas meninas desenvolvem estratégias para se adequar às expectativas de organização, comportamento e desempenho. Essas formas de compensação podem diminuir a percepção externa das dificuldades, mas dependem de esforço contínuo e não eliminam os prejuízos provocados pelo transtorno.
A psiquiatra Fabrícia Signorelli, do Ambulatório de TDAH no Adulto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que mulheres com TDAH costumam criar mecanismos para contornar as disfunções do quadro. Listas, lembretes e a divisão de tarefas em etapas estão entre os recursos utilizados. Segundo a especialista, porém, a necessidade permanente de compensar as dificuldades pode provocar esgotamento e desgaste emocional.
Ao longo da vida, mulheres que não tiveram o transtorno identificado podem ser classificadas como “desatentas”, “desorganizadas” ou “preguiçosas”. A repetição desses rótulos interfere na formação da autoimagem e pode afetar tanto a saúde psicológica quanto a física. O esforço para ocultar limitações também favorece uma experiência silenciosa do sofrimento, sem que a pessoa consiga relacioná-lo a uma condição específica.
“Precisamos ampliar o acesso à informação e abrir espaço para que as pessoas contem suas histórias sem serem reduzidas a rótulos, com mais compreensão e menos culpa”, afirma Renata Spallicci, vice-presidente executiva da Apsen Farmacêutica. A empresa mantém a iniciativa TDAH Levado a Sério, voltada ao enfrentamento dos estigmas associados ao transtorno.
Alterações hormonais podem dificultar a identificação do transtorno
As mudanças hormonais que ocorrem ao longo da vida feminina também podem influenciar a intensidade dos sintomas. O estrogênio participa de processos cerebrais relacionados à disponibilidade de dopamina, neurotransmissor associado à capacidade de concentração e ao controle emocional. Em períodos como a fase pré-menstrual, o pós-parto e a perimenopausa, a redução dos níveis hormonais pode acentuar falhas de atenção e cansaço mental.
A partir dos 40 anos, as oscilações características da perimenopausa podem provocar a chamada “névoa cerebral”, que inclui lapsos de memória e fadiga. Como essas manifestações se aproximam de alguns sintomas do TDAH, existe o risco de que o transtorno seja confundido com alterações atribuídas ao climatério. Essa sobreposição pode prolongar ainda mais o caminho até o diagnóstico e o início do suporte adequado.
Para diferenciar as condições, a investigação clínica deve considerar o histórico da paciente desde a infância. A análise da trajetória ao longo dos anos ajuda a identificar se as dificuldades surgiram apenas durante as alterações hormonais ou se correspondem a um TDAH que foi compensado durante toda a vida.
Na idade adulta, o cuidado deve envolver uma abordagem multidisciplinar, com acompanhamento médico, psicoterapia direcionada à reorganização da rotina e suporte socioemocional. O tratamento busca reduzir a culpa, compreender a origem das dificuldades e permitir que a mulher reconheça suas necessidades sem precisar ocultá-las ou atribuí-las a falhas pessoais.








