Pesquisadores identificaram que o comportamento de auto-sacrifício observado em machos de aranhas viúva-negra durante o acasalamento possui uma origem genética ligada aos cromossomos sexuais. O estudo, divulgado nesta quarta-feira (12) na revista Biology Letters, focou na espécie Latrodectus hasselti, conhecida como aranha-das-costas-vermelhas, comum na Oceania. Esses aracnídeos apresentam um sistema reprodutivo denominado monoginia, no qual os machos geralmente acasalam com uma única fêmea ao longo de toda a vida. Durante o ato sexual, o macho, que é significativamente menor que a fêmea, utiliza seus pedipalpos — estruturas semelhantes a braços — para transferir esperma aos dois órgãos de armazenamento de esperma da parceira. Após a inseminação, ele realiza uma movimentação conhecida como “cambalhota de auto-sacrifício”, posicionando seu abdômen próximo às presas da fêmea, o que frequentemente resulta na sua devoração.
Embora tal comportamento possa parecer contraditório, ele confere vantagens reprodutivas. Quando a fêmea inicia o canibalismo, o processo de acasalamento tende a se prolongar, possibilitando que o macho transfira uma quantidade maior de esperma. Além disso, o macho também realiza uma contração do abdômen após a cambalhota, movimento que dificulta que a fêmea o capture completamente, aumentando suas chances de sobreviver ao ritual e de inseminar ambos os órgãos de armazenamento da fêmea. Essa estratégia, longe de ser uma tentativa fracassada de escapar da predadora, parece evoluir como uma tática de maximização de sucesso reprodutivo.
Para entender a origem desse comportamento, pesquisadores da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, compararam a aranha-viúva-vermelha australiana com uma espécie próxima, a katipō (Latrodectus katipo), nativa da Nova Zelândia. Apesar da proximidade genética, os machos de katipō não realizam o ritual de auto-sacrifício, apresentando uma estratégia de acasalamento mais múltipla. Cruzamentos realizados entre machos de L. hasselti e fêmeas de katipō revelaram que aproximadamente metade dos híbridos da terceira geração exibiram o comportamento de cambalhota, indicando que esse traço comportamental está associado a um cromossomo sexual específico. Os estudos utilizaram câmeras infravermelhas para acompanhar 104 rituais de acasalamento, observando a realização ou não da cambalhota e da contração do abdômen.
Os resultados mostraram que, enquanto a cambalhota possui uma forte ligação com o cromossomo sexual, a contração do abdômen parece ter uma base genética mais complexa. Segundo o biólogo evolucionista Michael Kasumovic, da Universidade de Nova Gales do Sul, essa independência na origem genética sugere que essas características evoluíram de forma separada, mesmo sendo ambas cruciais para a sobrevivência do comportamento. A rápida evolução de uma estratégia tão complexa, com poucas alterações genéticas, foi considerada surpreendente pelos pesquisadores.
A comparação entre as espécies também fornece insights sobre a velocidade de mudanças comportamentais na evolução. Apesar de serem consideradas espécies próximas, a katipō, que teria se separado da aranha-de-costas-vermelhas há aproximadamente 100 a 200 mil anos, perdeu completamente o comportamento de auto-sacrifício. Isso indica que comportamentos complexos podem surgir ou desaparecer em períodos relativamente curtos, dependendo de fatores evolutivos.
Além do avanço científico, os resultados têm implicações para a conservação da katipō, que está em declínio na Nova Zelândia. A possibilidade de cruzamentos entre as espécies representa uma ameaça à integridade genética da katipō, que pode desaparecer devido à hibridização. As aranhas-de-costas-vermelhas, por sua vez, são espécies invasoras na Nova Zelândia, podendo predar espécies nativas, como lagartos e insetos. Pesquisadores, incluindo Cor Vink, estudam estratégias de controle, como o uso de feromônios para atrair machos e reduzir suas populações, o que poderia ajudar na conservação da espécie nativa. Segundo Vink, compreender os comportamentos e a genética dessas aranhas é fundamental para evitar o desaparecimento da katipō e para desenvolver medidas de manejo eficazes.







