O filme “Acampamento Miasma: Adolescência, sexo e morte”, dirigido por Jane Schoenbrun e com estreia no Brasil marcada para 13 de agosto, apresenta uma abordagem que vai além do simples horror slasher, explorando temas de representatividade, objetificação e o impacto geracional dentro do gênero. A narrativa se passa em um cenário isolado, no qual duas mulheres de diferentes épocas — Kris Williams, uma jovem cineasta interpretada por Hannah Einbinder, e Billy Preston, uma atriz que viveu o auge do primeiro filme da franquia nos anos 1980, interpretada por Gillian Anderson — se encontram e dialogam sobre as consequências de um gênero cinematográfico que marcou uma geração.
A história tem início com Kris, que recebe a missão de revitalizar uma franquia de slashers iniciada nos anos 1980, semelhante à famosa “Sexta-feira 13”, de Sean S. Cunningham, lançada em 1980. Sem ideias claras, ela busca Billy Preston, que desapareceu do cenário após protagonizar o filme original. A atriz vive atualmente no acampamento onde o primeiro filme foi filmado, um local que, nos anos 1980, foi palco de um episódio trágico envolvendo um jovem não binário que foi afogado, tornando-se uma figura simbólica na narrativa do filme, além de uma referência ao vilão Cabeça-de-pirâmide da franquia Silent Hill.
A partir do encontro, o longa desenvolve uma reflexão sobre como as representações culturais da monstruosidade e do corpo feminino foram moldadas por filmes de horror daquele período. Kris, que também busca denunciar as questões de gênero presentes nas obras do gênero, enxerga nos slashers uma forma de explorar essas problemáticas, enquanto Billy carrega as marcas profundas de sua experiência como protagonista de um filme que, na visão de ambas, é carregado de estereótipos e objetificação.
O filme destaca a atmosfera de isolamento e a neve ao redor do acampamento, criando um cenário que transita entre o real e o onírico, com uma estética psicodélica e cenografia artificial, realçada pela fotografia de Eric Yue. Essa ambientação contribui para a transformação do filme em uma experiência que, inicialmente, parece uma crítica ao horror, mas que gradualmente se aproxima do delírio, refletindo o mergulho emocional das personagens e a complexidade de suas relações. A narrativa culmina em um clímax que mistura elementos de sonho e realidade, deixando o espectador diante de uma experiência sensorial e simbólica.
Em termos estruturais, “Acampamento Miasma” mantém semelhanças com o trabalho anterior de Schoenbrun, “Eu vi o brilho da TV”, especialmente na forma como os limites entre ficção e realidade se desfocam. No entanto, o roteiro demonstra maior coesão, apoiado na química entre Einbinder e Anderson, que conseguem transmitir os conflitos geracionais e culturais de forma convincente. A obra também aborda questões de identidade de gênero e o impacto do passado na construção do presente, abordando de maneira mais madura e aprofundada as temáticas que envolvem o gênero slasher, conhecido por seu simbolismo de carne e fluidos, conforme a própria Billy explica em uma das cenas.
“Acampamento Miasma” não é uma sátira, mas uma reflexão ambiciosa que combina elementos de horror, psicodelia e crítica social, explorando o impacto do gênero na cultura e na experiência de suas protagonistas. A obra se destaca por seu roteiro consistente, sua estética marcante e pelo modo como consegue transformar um cenário de horror clássico em uma experiência sensorial que convida à introspecção, deixando uma marca duradoura na narrativa do cinema contemporâneo de horror.






