Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, revelou que sessões curtas de exercício em alta intensidade podem desencadear mudanças moleculares no organismo muito mais significativas do que períodos prolongados de atividade moderada. A pesquisa, publicada nesta quinta-feira (13) na revista especializada Cell Reports Medicine, demonstra que alguns minutos de esforço máximo podem provocar alterações profundas na circulação sanguínea, superando os efeitos de sessões mais longas de exercício de intensidade moderada.
No estudo, os cientistas compararam os efeitos de diferentes tipos de esforço físico, destacando-se que seis séries de corridas de 30 segundos com esforço máximo alteraram quase 25% das proteínas analisadas imediatamente após a atividade. Em contrapartida, 90 minutos de ciclismo moderado e contínuo modificaram menos de 0,25% dessas proteínas. Ainda que a corrida moderada na esteira tenha causado mais alterações do que o ciclismo moderado, os efeitos ainda foram muito inferiores às respostas observadas após o esforço intenso.
Os pesquisadores também observaram mudanças em mais de 200 metabólitos — moléculas envolvidas nos processos químicos do corpo — logo após os exercícios de alta intensidade. Entre as alterações, houve aumento na presença de proteínas relacionadas ao crescimento de vasos sanguíneos, à remodelação de tecidos e à sinalização hormonal, indicando uma resposta rápida e abrangente do organismo ao esforço máximo.
Um dos mecanismos identificados é a liberação do ectodomínio, processo em que proteínas presentes na superfície das células são fragmentadas e liberadas na corrente sanguínea, sem a necessidade de produção de novas proteínas. Essa liberação rápida pode explicar as mudanças observadas no sangue após o exercício intenso.
Para entender o impacto dessas alterações em outros tecidos, os pesquisadores expuseram células de gordura humana (adipócitos) às amostras de sangue coletadas após as atividades físicas. Os resultados mostraram que as células apresentaram alterações extensas na atividade gênica, influenciando processos relacionados ao uso de combustível, resposta hormonal e detecção de nutrientes.
Já o exercício moderado provocou mudanças no organismo, mas de forma mais discreta. Após três horas da atividade, foi possível detectar uma onda de ácidos graxos e proteínas produzidas pelo fígado, típicas de respostas ao exercício de resistência. As células de gordura expostas ao sangue após o ciclismo moderado também apresentaram mudanças menores em sua atividade gênica, em comparação às alterações observadas após as corridas intensas.
De acordo com Luke Olsen, um dos autores do estudo, os resultados ajudam a esclarecer por que a intensidade do exercício é fundamental para determinar a resposta molecular do corpo. “Diferentes intensidades de exercício estimulam adaptações distintas, mas os mecanismos moleculares que conectam essas adaptações ainda não são totalmente compreendidos”, afirmou.
Os pesquisadores também compararam as proteínas que responderam ao exercício com dados de saúde de mais de 53 mil pessoas do Biobanco do Reino Unido. Muitas dessas proteínas estão associadas a um menor risco de doenças cardiovasculares e metabólicas, como obesidade e diabetes tipo 2. Das 33 proteínas relacionadas a um risco reduzido dessas condições, 32 foram alteradas após sessões de exercício intenso, enquanto apenas três apresentaram mudanças após atividade moderada. Além disso, mais de um quarto dessas proteínas também estão ligadas a um envelhecimento biológico mais lento.
Outro ponto importante do estudo é que a resposta molecular provocada pelo exercício intenso foi observada também após oito semanas de treinamento, indicando que seus efeitos não são apenas transitórios. Segundo Paul Cohen, um dos autores, “apenas alguns minutos de exercício intenso podem desencadear uma resposta molecular significativa, e essa resposta persistir após o treinamento contínuo, sugerindo que ela seja uma característica própria do esforço vigoroso, não apenas uma reação ao estresse de uma atividade incomum”.
Os resultados sugerem que proteínas e metabólitos chamados exercinas, liberados durante ou após a atividade física, podem desempenhar um papel importante na mediação dos benefícios do exercício de alta intensidade. Os autores destacam que essas moléculas são altamente sensíveis à intensidade do esforço e podem estar relacionadas às melhorias na saúde associadas à prática de exercícios vigorosos.
Por fim, os pesquisadores ressaltam que, embora os exercícios moderados continuem sendo importantes para a saúde, a resposta molecular mais rápida e ampla observada após sessões intensas indica que, para objetivos específicos de mudanças moleculares rápidas, alguns minutos de esforço máximo podem ser mais eficazes do que longas sessões de atividade moderada.








