A compreensão dos transtornos mentais é um tema que envolve diversas abordagens teóricas, desde a psicanálise até o behaviorismo, passando pelas teorias cognitivas e a fenomenologia. No entanto, nenhuma dessas perspectivas, isoladamente, consegue explicar de forma plena a complexidade do comportamento humano patológico. Uma questão muitas vezes negligenciada por essas correntes é a existência do cérebro, órgão biológico cuja presença física e funcionamento bioquímico são evidentes e inegáveis. Como afirma o geneticista Theodosius Dobzhansky, “Em biologia nada faz sentido a não ser à luz da evolução”, uma frase que reforça a importância de considerar a evolução como uma chave para entender a origem e o desenvolvimento dos transtornos mentais.
A lacuna na compreensão dessas condições é parcialmente preenchida pela Psiquiatria Evolutiva, uma abordagem que, embora não seja capaz de fornecer tratamentos específicos por si só, busca integrar os postulados de outras teorias sob a perspectiva evolutiva. Essa abordagem não pretende esgotar o tema, mas oferecer uma compreensão mais ampla, ajudando na ressignificação dos sintomas e na redução do sofrimento emocional. A cura simbólica, por exemplo, consiste na compreensão do que ocorre com o paciente, atribuindo sentido à experiência do adoecimento e enquadrando-a em uma narrativa explicativa sobre o mundo. Essa estratégia pode promover uma sensação de alívio, ao diminuir incertezas e angústias, ao mesmo tempo em que oferece uma visão mais ampla do funcionamento mental.
Embora o cérebro não possa ser reduzido a uma simples máquina biológica, evidências científicas demonstram que fatores genéticos desempenham papel importante na formação dos transtornos mentais. Desde traços de temperamento herdados familiarmente até a alta herdabilidade de certas condições, como a esquizofrenia, que apresenta uma concordância de cerca de 40% entre gêmeos monozigóticos, em comparação com aproximadamente 5% em irmãos não idênticos, fica claro que fatores genéticos influenciam significativamente esses distúrbios. Para a esquizofrenia, essa herdabilidade chega a quase 80%, enquanto na depressão e na ansiedade os números giram em torno de 30%. Esses dados indicam que os transtornos mentais não surgem por acaso, mas estão associados a genes que, ao longo da história evolutiva, podem ter conferido vantagens adaptativas.
A teoria evolutiva sugere que certas características genéticas relacionadas a esses transtornos podem ter sido preservadas por oferecerem benefícios em contextos específicos, tornando-se, assim, um efeito colateral do processo de evolução. Quando a expressão dessas características se torna exagerada ou descompensada, surgem as disfunções mentais. Essa ideia é explorada na obra do escritor Philip K. Dick, no livro Os Clãs da Lua Alfa (Suma, 2026), onde uma sociedade criada a partir das características de diferentes pacientes psiquiátricos revela que, por trás de sintomas considerados patológicos, podem existir qualidades potencialmente úteis à sociedade.
No romance, a Lua, que foi um grande manicômio durante anos, é abandonada após uma guerra, e os pacientes, deixados à própria sorte, passam a organizar a colônia. Dick ilustra que, embora nem sempre clinicamente precisos, esses conceitos sugerem que capacidades como energia excessiva, paranoia ou obsessões podem, em outros contextos, desempenhar funções úteis, como a invenção, a organização social ou a visão de conjunto. Assim, a distinção entre função e disfunção, muitas vezes, não é tão clara quanto se pensa, reforçando a importância de uma abordagem que considere o papel evolutivo na formação do comportamento humano.









