Vivemos na era das multinotificações, um período em que a tecnologia e, especialmente, os smartphones, dominam a rotina diária de milhões de pessoas. Desde o momento em que acordam até o instante de dormir, os usuários são constantemente expostos a lembretes de e-mails, comentários em redes sociais, notícias, aplicativos de música, compromissos e promoções, tudo acessível na tela do aparelho. Essa exposição contínua promove uma mudança significativa na forma como o cérebro humano processa estímulos e realiza tarefas, levando a uma série de efeitos que preocupam a comunidade científica.
Estudos recentes demonstram que a frequência com que as pessoas desbloqueiam seus celulares ultrapassa 100 vezes ao dia, muitas vezes sem que uma notificação específica os motive. Essa rotina de checagem constante condiciona o cérebro a um estado de atenção fragmentada, dificultando a concentração por períodos prolongados. Uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports em 2023, por exemplo, avaliou jovens adultos submetidos a testes de concentração com e sem a presença do celular. Os resultados indicaram que o desempenho foi inferior quando o aparelho estava por perto, sugerindo que o smartphone consome recursos cognitivos mesmo quando não está sendo utilizado ativamente.
Contudo, estudos posteriores, como o publicado em 2025 na European Journal in Health Psychology and Education, indicam que a relação entre a presença do celular e a diminuição do desempenho não é tão direta. Os pesquisadores observaram que, embora o uso intensivo do smartphone esteja associado a um aumento na incidência de erros, a simples presença do aparelho não explica completamente esse fenômeno. Assim, o impacto no cérebro depende, sobretudo, de como o usuário interage com a tecnologia no cotidiano, revelando uma mudança no funcionamento cerebral provocada pelo uso frequente.
Para compreender essa nova fase do desenvolvimento humano, foi criado o conceito de hiperestimulação cognitiva, que descreve situações em que o cérebro é exposto a uma quantidade e velocidade de estímulos acima de sua capacidade de processamento. Essa condição, muitas vezes referida como “brain rot” ou cérebro “podre”, faz com que o órgão “desligue” ou diminua sua eficiência ao se deparar com estímulos excessivos e rápidos. Segundo o psiquiatra Antônio Egidio Nardi, professor da Faculdade de Medicina e do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a constante alternância entre redes sociais, mensagens, vídeos curtos e notificações reduz as oportunidades de atenção sustentada e de elaboração do que foi recebido.
Ele destaca, entretanto, que o tempo total de uso do celular não é o único fator relevante. Uma pessoa pode passar horas diante da tela, mas com experiências distintas: enquanto uma pode estudar ou escrever de forma concentrada, outra pode alternar dezenas de vezes entre conteúdos curtos, o que exige mudanças rápidas de foco e prejudica a atenção contínua. Essa mudança na dinâmica cerebral ocorre porque, ao longo da evolução, o cérebro foi adaptado para focar em uma tarefa por períodos mais longos, com intervalos de descanso. A realidade atual, marcada por múltiplas demandas simultâneas, impede esse funcionamento natural, fragmentando o esforço de concentração.
As plataformas digitais, por sua vez, reforçam esse comportamento ao oferecer recompensas imprevisíveis que estimulam a busca constante por novidades, ativando a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à motivação e ao prazer. A psicóloga Maria Clotilde Tavares, da Universidade de Brasília (UnB), explica que cada rolagem de tela cria uma expectativa de encontrar algo interessante, gerando picos de dopamina que condicionam o cérebro a preferir estímulos rápidos e constantes. Com o tempo, conteúdos mais lentos perdem atratividade, levando o usuário a necessitar de estímulos ainda mais intensos para manter o engajamento.
Essa busca por gratificações rápidas também reforça o comportamento de verificar o celular repetidamente, mesmo na ausência de notificações. Segundo Nardi, essa rotina reforça um ciclo de recompensa imprevisível, que estimula a checagem constante e prejudica atividades que demandam maior tempo e concentração, como leitura, estudo ou tarefas complexas. Além disso, a dificuldade de manter o foco também está relacionada à prática de atenção, que necessita de treino contínuo. A alternância frequente entre conteúdos curtos reduz a capacidade de reter informações por períodos mais longos, dificultando a realização de tarefas prolongadas.
O uso excessivo de tecnologias digitais também está associado a sintomas como ansiedade, irritabilidade e dificuldades de foco. O ambiente digital, com sua disponibilidade constante, expectativas por respostas rápidas e interrupções frequentes, favorece esses quadros, além de estimular comparações sociais e o medo de perder informações importantes, o que aumenta a sensação de vigilância contínua. Uma pesquisa do Datafolha, realizada em 2022 com mais de 2 mil brasileiros, revelou que o uso intenso de redes sociais está relacionado a sentimentos de cobrança, medo de julgamento e insatisfação com a própria vida, fatores que podem contribuir para quadros de ansiedade e depressão.
Outro aspecto preocupante é o uso do celular à noite, que prejudica a qualidade do sono devido à estimulação mental e à dificuldade de desconectar. Estudos científicos, como uma revisão publicada em 2024 na revista Springer, indicam que o consumo de redes sociais está ligado a alterações na saúde mental, especialmente entre jovens, além de afetar a qualidade do sono. Esses efeitos não dependem apenas da quantidade de tempo de uso, mas também do envolvimento emocional e da forma como as plataformas são consumidas.
Apesar dos efeitos negativos, a capacidade de atenção não é irreversivelmente comprometida. A psicóloga Giana Bitencourt Frizzo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que o cérebro responde às mudanças de hábito ao longo da vida e que a atenção sustentada pode ser recuperada por meio de intervenções específicas. Ela explica que essa habilidade, desenvolvida na infância, depende de prática contínua, e que hábitos de estímulo rápido podem dificultar a manutenção do foco em atividades mais longas.
A reversão desse quadro exige mudanças na rotina, incluindo a redução do tempo de uso de telas e a substituição de estímulos rápidos por atividades que exijam maior envolvimento, como leitura, esportes ou interações presenciais. A higiene do sono, por exemplo, é fundamental para melhorar a qualidade do descanso, evitando o uso do celular antes de dormir e promovendo momentos de desconexão. Além disso, estratégias como criar barreiras físicas ao uso do celular durante tarefas, desativar notificações não essenciais e organizar períodos de trabalho em blocos de monotarefa podem ajudar na recuperação da atenção e na melhoria do bem-estar mental. Treinar a tolerância ao tédio e evitar recorrer ao aparelho em momentos de espera também são medidas recomendadas para reequilibrar o funcionamento cerebral diante do cenário digital atual.









