Um fóssil de aproximadamente 245 milhões de anos, encontrado na China, oferece uma oportunidade única para a paleontologia ao preservar não apenas os ossos, mas também partes do interior de um antigo réptil marinho. Trata-se de um exemplar de Austronaga minuta, que mantém intactas estruturas de órgãos como estômago, fígado e intestinos, configurando o sistema digestivo mais antigo de réptil quase completo já registrado na ciência.
O fóssil, que está em estado de quase completo, pertence a uma pequena criatura de pescoço alongado que viveu durante o período Triássico Médio, uma era marcada por transições significativas na história evolutiva dos répteis. Com cerca de 60 centímetros de comprimento, o animal apresentava adaptações notáveis à vida aquática, apesar de seus ancestrais terem origem terrestre. Essas características indicam uma evolução de estratégias de natação que se consolidaram ao longo do tempo.
A anatomia do Austronaga sugere que ele era um nadador especializado, com uma cauda longa que provavelmente impulsionava o animal na água, além de patas dianteiras alongadas que funcionavam como nadadeiras, auxiliando na direção e estabilidade. As patas traseiras, menores e pouco participativas na natação, reforçam a adaptação do réptil ao ambiente aquático. Essas descobertas foram detalhadas em um estudo publicado em 29 de julho na revista científica Science Advances.
O aspecto mais extraordinário do fóssil foi a preservação de uma região escura entre as costelas, que, por meio de técnicas como fotografia sob luz ultravioleta e espectrometria de massa, revelou-se como uma grande porção do sistema digestivo do animal. Os pesquisadores identificaram um estômago em formato de saco, seguido pelo fígado, que exibia uma coloração avermelhada e continha vestígios de hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue. Além disso, foi possível observar um tubo longo e simples que formava os intestinos delgado e grosso.
Apesar das adaptações externas sofisticadas para a vida aquática, o sistema digestivo do Austronaga era relativamente simples. Segundo Nicholas Fraser, dos Museus Nacionais da Escócia e autor do estudo, o animal possuía apenas uma câmara estomacal, diferentemente de aves e crocodilos atuais, que apresentam estômagos divididos em duas partes. Essa estrutura mais básica indica que, na época, os estômagos dos arcossauros — grupo que inclui crocodilos e dinossauros — ainda não haviam evoluído para configurações mais complexas, evoluindo posteriormente ao longo do tempo.
O trato digestivo do réptil também apresentava uma estrutura curta e pouco complexa, semelhante à de répteis que se alimentam de peixes atualmente. Essa combinação evidencia que, enquanto a anatomia externa do Austronaga já estava altamente adaptada à natação, seus órgãos internos sofreram modificações menores, preservando uma estrutura mais primitiva.
Embora seu corpo apresentasse estratégias de natação similares às de outros répteis marinhos, como ictiossauros e mosassauros gigantes, o Austronaga não era um parente próximo desses animais. Ele pertencia ao grupo dos arcossauros terrestres, que inclui crocodilos e dinossauros, indicando uma linha evolutiva distinta que também se adaptou ao ambiente marinho de forma independente.
De acordo com Stephan Spiekman, paleontólogo do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart e coautor do estudo, a descoberta demonstra que representantes antigos dessa linhagem já haviam desenvolvido adaptações complexas para a vida oceânica, desafiando a visão de que a adaptação ao ambiente marinho pelos arcossauros teria sido limitada. A preservação simultânea do esqueleto e dos órgãos internos permite aos cientistas compreenderem de forma mais completa a anatomia e a evolução desses répteis primitivos, além de contribuir para o entendimento de como esses animais se adaptaram ao ambiente marítimo durante o Triássico, bem como a evolução dos grupos de répteis que permaneceram em terra firme.








