Arqueólogos identificaram vestígios de uma igreja com aproximadamente 1.700 anos de idade sob uma estrutura submersa no Lago İznik, na Turquia. A descoberta, feita na região que foi antiga cidade de Niceia, levanta possibilidades de conexão com o Primeiro Concílio de Niceia, realizado em 325 d.C., uma das reuniões mais significativas na história do cristianismo. No entanto, essa hipótese ainda é objeto de debate entre especialistas, que ressaltam a necessidade de mais evidências para confirmação.
A antiga cidade de Niceia, atualmente conhecida como İznik, foi palco do concílio convocado pelo imperador romano Constantino I. Este evento reuniu bispos cristãos para discutir divergências teológicas e estabelecer o que viria a se tornar o Credo Niceno, uma das principais declarações de fé do cristianismo. A estrutura submersa, que atualmente se encontra no fundo do lago, foi descoberta em 2014, durante uma expedição arqueológica. Desde então, as escavações realizadas pelo time liderado pelo arqueólogo Mustafa Şahin, professor da Universidade Bursa Uludağ, vêm revelando uma série de vestígios de uma construção menor situada sob a basílica principal.
Os achados incluem restos de paredes, pavimentação e uma base de coluna, além de um piso localizado cerca de 30 centímetros abaixo da estrutura maior. Segundo Şahin, esses elementos indicam que a edificação menor corresponde a uma fase anterior à construção da basílica atual. Em entrevista ao site Live Science, ele sugeriu que essa estrutura possa ser identificada como a Igreja de São Neófitos, enquanto a maior, que hoje está submersa, seria a Igreja dos Santos Padres, construída posteriormente no mesmo local.
A hipótese de ligação com o Primeiro Concílio de Niceia também encontra respaldo em registros históricos. Eusébio de Cesareia, participante do concílio, descreveu o espaço de reunião como uma “casa de oração” ou uma pequena igreja, descrição que, na visão de Şahin, se encaixa melhor na estrutura menor do que na grande basílica. Além disso, a cronologia das descobertas apoia essa interpretação: a equipe estima que a igreja menor tenha sido destruída por um terremoto por volta de 368 d.C., enquanto a construção da igreja maior teria ocorrido após 380 d.C.
Porém, apesar dos indícios, não há consenso entre os estudiosos quanto à identificação da estrutura como o local das reuniões do concílio. A principal dificuldade reside na datação precisa da construção menor, que ainda não foi totalmente esclarecida. A teoria mais aceita, baseada em relatos do próprio Eusébio, indica que a abertura do concílio ocorreu no palácio imperial às margens do Lago de Niceia, e que o evento durou cerca de três meses. Contudo, o palácio imperial ainda não foi localizado, e há possibilidades de que ele esteja submerso no próprio Lago İznik.
Além das estruturas arquitetônicas, os arqueólogos também encontraram objetos de valor, como um anel de ouro e um dedal. O anel, decorado com desenhos de uma palmeira e uma espada, apresenta características semelhantes às de objetos utilizados durante os períodos omíada e abássida, o que pode indicar uma ligação com o cerco de İznik realizado em 729, ou seja, que membros do grupo visitaram a igreja durante esse período. Essas descobertas reforçam a hipótese de que a estrutura mais antiga tenha tido algum papel importante na história religiosa e política da região.
Embora as escavações tenham confirmado a existência de uma igreja anterior à basílica atualmente submersa, a relação direta dessa estrutura com o Primeiro Concílio de Niceia ainda não foi definitivamente estabelecida. Pesquisas futuras, com análises mais aprofundadas e datações precisas, são essenciais para esclarecer a função e o período exato dessas construções, além de contribuir para o entendimento do contexto histórico do cristianismo na região.






