Um patógeno altamente letal tem sido responsável pela morte em massa de girinos e pelo declínio significativo de populações de anfíbios na Mata Atlântica, especialmente na região de Santa Catarina. Pesquisadores apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) confirmaram, pela primeira vez na América do Sul, que surtos recorrentes de ranavirose provocaram uma redução de 83% na reprodução da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma lagoa localizada no município de Guaramirim. A doença, causada por um vírus que também acomete répteis e peixes, apresenta potencial de causar o colapso de populações silvestres na região, risco já documentado na Europa, mas até então não comprovado na América do Sul.
O estudo, publicado em 20 de agosto na revista científica Biodiversity and Conservation, trouxe evidências robustas de que o ranavírus pode ser uma ameaça direta à sobrevivência de espécies nativas, especialmente em períodos de baixa umidade. Dados coletados indicam que a incidência de surtos se intensifica em épocas secas, quando a umidade do ar cai para cerca de 65%, favorecendo a replicação do vírus e comprometendo o sistema imunológico dos anfíbios, que ficam mais vulneráveis às infecções. A baixa umidade também contribui para a concentração de girinos em áreas menores, facilitando a transmissão do vírus entre indivíduos.
O ranavírus, comum na natureza e frequentemente encontrado infectando rãs-touro (Aquarana catesbeiana) em ambientes de criação e na natureza, geralmente não provoca doenças na espécie invasora. Contudo, nos anfíbios nativos, especialmente nos girinos, a infecção se manifesta de forma rápida e devastadora, levando à necrose de tecidos internos, como o fígado, além de sinais clínicos visíveis, como inchaço abdominal, vermelhidão intensa, úlceras e hemorragias internas, inclusive nos olhos. A análise histológica de 13 girinos revelou lesões severas compatíveis com infecção por ranavírus, confirmando a relação entre o vírus e as mortes observadas.
O primeiro episódio de mortalidade na lagoa estudada ocorreu em janeiro de 2024, seguido por outros dois eventos entre novembro de 2024 e março de 2026. Ao todo, foram contabilizados 324 girinos mortos, sendo 315 da perereca-macaco e nove da perereca-de-pijama (Boana bischoffi). Destes, 88,6% dos girinos de perereca-macaco e 88,9% dos de perereca-de-pijama testaram positivo para o vírus, com cargas virais elevadas — cerca de 10 bilhões de cópias por microlitro nas pererecas-macaco e aproximadamente 2 bilhões nas de pijama. Apesar do alto índice de infecção na perereca-macaco, o número de mortos da espécie de pijama foi considerado insuficiente para caracterizar uma mortandade em massa.
O estudo, conduzido por Aline Fonseca, doutoranda na Universidade Federal do Paraná (UFPR), e apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha, também utilizou análises histológicas para confirmar os danos causados pelo vírus nos tecidos dos girinos. As mortes ocorreram na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário Rã-Bugio, na cidade de Guaramirim, onde o monitoramento contínuo da população de anfíbios vem sendo realizado desde 1999 por pesquisadores do Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade.
A análise de dados climáticos revelou que, embora fatores ambientais isolados não tenham sido considerados determinantes para as mortes ao longo dos anos, houve aumento abrupto do risco de surtos quando a umidade relativa do ar caiu de 90% para 65% duas semanas antes dos eventos de mortalidade. Isso sugere que o vírus permanece presente no ambiente de forma latente, mas condições de baixa umidade favorecem sua replicação e aumentam a vulnerabilidade dos anfíbios. Além disso, a concentração de girinos em áreas menores devido à redução de água também facilita a transmissão do vírus.
O monitoramento da lagoa do Santuário Rã-Bugio permanece ativo, com planos futuros de coleta de amostras em áreas próximas para avaliar a prevalência do ranavírus na região. Especialistas alertam que essa ameaça pode ser mais ampla do que se imagina, considerando o histórico de outros agentes patogênicos, como o fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis), que já foi detectado em anfíbios brasileiros desde 1916, antes mesmo da introdução da rã-touro no país. Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destaca que o ranavírus pode estar presente na Mata Atlântica há muito tempo, e o que mudou para se tornar uma ameaça séria ainda é um mistério que exige aprofundamento nos estudos. Ele ressalta a importância de investigar também registros históricos em museus de zoologia para compreender o impacto passado do vírus e avaliar o risco de extinção de espécies nativas diante dessa nova ameaça.









