Pesquisadores que estudam chimpanzés selvagens na Guiné-Bissau identificaram um comportamento pouco comum e possivelmente cultural, caracterizado pelo arremesso cumulativo de pedras contra árvores específicas. Este comportamento, observado em grupos de chimpanzés-do-oeste, foi documentado por meio de vídeos e registros de campo na região do Parque Nacional de Boé, uma área de savana e floresta localizada na parte central do país.
Durante as expedições, a equipe encontrou árvores marcadas por cicatrizes e com uma concentração de pedras na base, indicando que os chimpanzés realizam arremessos repetidos contra esses locais. Os animais, predominantemente machos adultos, emitem o chamado “pant-hoot” ao arremessar as pedras, o que sugere uma manifestação de comunicação de longo alcance. Além disso, eles frequentemente golpeiam as árvores com as mãos e os pés, em um comportamento conhecido como “percussão em raízes tabulares”. Essas ações parecem formar uma espécie de exibição social ou territorial, com os locais de acúmulo de pedras funcionando possivelmente como marcos dentro do território dos primatas.
O comportamento foi registrado em locais que os chimpanzés utilizam há mais de uma década, indicando uma tradição que persiste ao longo do tempo. Apesar de algumas hipóteses sugerirem que o arremesso de pedras possa ter uma função comunicativa ou simbólica, os pesquisadores ainda não compreenderam completamente o significado dessa prática para os animais. O comportamento de acumular pedras arremessadas, embora raro e observado em apenas quatro grupos na África Ocidental, se diferencia de outras utilizações de ferramentas por primatas, como o uso de pedras para quebrar nozes, por envolver uma atividade social e cultural de acumulação e exibição.
A equipe de pesquisa realizou suas atividades a partir de uma base instalada na vila de Béli, próxima ao rio Fefine, uma importante fonte de água na região. A partir de lá, percorreram cerca de 22 quilômetros por meio de caminhadas e uso de bicicletas, até os locais de observação, instalando câmeras estratégicas para registrar o comportamento dos chimpanzés, uma vez que esses primatas não estão habituados à presença humana e tendem a fugir ao perceberem pessoas próximas.
As gravações de vídeo e áudio coletadas visam aprofundar o entendimento sobre os aspectos sociais do comportamento, incluindo a participação de diferentes idades e sexos na atividade de arremesso, além de possíveis reações de outros chimpanzés nas imediações. Os dados também envolvem medições de árvores e escaneamentos 3D das pedras, contribuindo para análises futuras sobre o contexto ecológico do comportamento.
O estudo reforça a importância de compreender e preservar esses comportamentos culturais, que representam uma herança duradoura dos chimpanzés e podem auxiliar na adaptação às mudanças ambientais. Entretanto, o habitat dos primatas na Guiné-Bissau enfrenta ameaças decorrentes da mineração de bauxita, atividade que tem causado perfurações no solo e pode levar à destruição do ecossistema local. A mineração, embora seja vista como uma oportunidade de desenvolvimento econômico, traz riscos ambientais significativos, incluindo a perda de habitat e a poluição, efeitos já constatados na vizinha Guiné.
Diante desses desafios, a fiscalização ambiental e a regulamentação adequada tornam-se essenciais para garantir a conservação dos chimpanzés e de suas tradições culturais. A pesquisa, além de ampliar o entendimento científico sobre o comportamento desses primatas, busca sensibilizar para a necessidade de proteger o patrimônio biológico e cultural de espécies ameaçadas, em um momento em que atividades humanas podem ameaçar sua sobrevivência.
Este artigo foi elaborado por Robyn Nakano, doutoranda no Laboratório de Comportamento de Grandes Símios da Universidade de Victoria, e Ammie Kalan, professora assistente do mesmo laboratório, tendo sido publicado originalmente no portal The Conversation.









