A China anunciou a suspensão temporária das atividades de resgate na região de fronteira com o Nepal e o Tibete, em decorrência do risco de uma nova inundação na área. A decisão foi tomada após a formação de um lago artificial causado pelo transbordamento de um reservatório natural, resultado de um possível colapso de uma barreira de detritos na confluência dos rios Chhochen Khola e Purepu Tsangpo, próximos ao pico Langtang Lirung. O aumento do nível de água levou equipes de emergência a abandonarem áreas consideradas perigosas, enquanto o temor de novos deslizamentos de terra e avalanches aumentou a apreensão na região. Posteriormente, as autoridades chinesas informaram que o risco de rompimento estaria sob controle, e as operações de resgate foram retomadas.
A ameaça de uma segunda inundação surgiu apenas dois dias após uma enchente repentina que atingiu a região do Himalaia na quarta-feira, 26 de outubro, causando centenas de mortes e deixando milhares de desaparecidos no Nepal e no Tibete. Segundo dados da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV), aproximadamente 93 mil pessoas podem ter sido afetadas pelos efeitos do desastre, que teve origem no colapso de uma geleira na área de Langtang Lirung, provocando uma onda de lama, pedras e água que devastou comunidades inteiras.
O principal foco de preocupação é o chamado “lago de barreira”, uma formação de água represada por detritos, que pode liberar seu volume de forma repentina caso a estrutura natural ceda. Na sexta-feira, 28 de outubro, o lago acumulava cerca de 2,5 milhões de metros cúbicos de água, com previsão de aumento de até 3 milhões de metros cúbicos nos dias seguintes, elevando a pressão sobre a barreira natural. As autoridades chinesas classificaram o risco de rompimento como “alto”, e o volume de água estimado para os próximos dias poderia atingir aproximadamente 5 milhões de metros cúbicos — o equivalente a cerca de 2 mil piscinas olímpicas.
Especialistas alertam que, embora o volume do lago seja relativamente pequeno em comparação ao desastre de quarta-feira, a instabilidade das encostas e o potencial de novos deslizamentos representam uma ameaça contínua. O risco de uma nova enchente, mesmo que de menor magnitude, poderia impactar áreas já fragilizadas, agravando a situação de comunidades e equipes de resgate. Além disso, a dificuldade de intervenção para esvaziar o lago artificialmente é um fator agravante, pois o acesso ao local é dificultado por estradas destruídas e pela complexidade da operação, que demandaria escavadeiras e equipamentos pesados de difícil transporte até a região.
Para monitorar a situação, equipes de engenharia chinesas realizaram levantamentos aéreos e modelagem tridimensional do lago, enquanto autoridades nepalesas alertaram sobre possíveis bloqueios em outros trechos dos rios Bhote Koshi e Trishuli, recomendando que a população permaneça afastada das áreas próximas aos cursos d’água até novo aviso. A previsão de chuvas intensas nos próximos dias aumenta a preocupação com a elevação do volume de água, potencializando o risco de rompimentos adicionais.
No contexto das operações de resgate, que envolvem milhares de soldados, policiais, equipes de emergência, além de helicópteros, drones e cães treinados, a dificuldade de acesso às regiões mais afetadas, somada às condições climáticas adversas, torna a tarefa ainda mais complexa. As equipes continuam monitorando de perto o nível da água, a estabilidade das encostas e as condições meteorológicas, buscando evitar uma nova tragédia antes que as áreas mais vulneráveis sejam atingidas novamente.
Até o momento, o balanço oficial aponta para pelo menos 469 mortos no Nepal e 977 desaparecidos, além de 1.545 resgatados, enquanto no Tibete, pelo menos três pessoas morreram e outras 558 permanecem desaparecidas, incluindo 260 estrangeiros. O desastre foi atribuído ao colapso de uma parte da geleira nas proximidades de Langtang Lirung, que desencadeou a onda de lama e água que devastou o vale, destruindo pontes, estradas e comunidades inteiras.
Apesar do controle temporário do risco de rompimento do lago, as autoridades continuam em alerta máximo. A possibilidade de novas chuvas e o aumento do volume de água mantêm a região sob vigilância constante, com a expectativa de que a estabilidade das montanhas e o comportamento das condições climáticas determinarão o desfecho da crise.








