O empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, estaria envolvido na tentativa de criar um consórcio de empresas com o objetivo de disfarçar um suposto favorecimento à World Cannabis, empresa ligada a ele, em um projeto do Ministério da Saúde. As informações foram divulgadas pela revista Veja e revelam uma estratégia que envolveria a participação de lobistas e figuras de alto escalão do governo federal.
Segundo as denúncias, o projeto em questão previa que o Ministério da Saúde contratasse a empresa de cannabis para fornecer medicamentos à base de canabidiol, com um valor estimado de aproximadamente R$ 627 milhões. Para viabilizar essa contratação, Camilo Antunes teria articulado uma manobra para ajustar o termo de referência da licitação, de modo a restringir a disputa a apenas quatro empresas previamente selecionadas. Três dessas seriam convidadas pelo próprio Careca do INSS, enquanto a quarta seria a World Cannabis, vinculada ao empresário.
A estratégia, segundo relato de um ex-funcionário de Camilo Antunes, o empresário Edson Claro, envolvia permitir que as empresas participassem formalmente do processo licitatório, enquanto Camilo tentava, por meio de contatos com lobistas e integrantes do governo, destravar obstáculos internos. Para que o projeto avançasse, ainda seria necessário obter autorizações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e certificações internacionais, o que reduziria o universo de cerca de 400 empresas do setor para aproximadamente dez, conforme depoimentos de fontes próximas ao caso.
As investigações indicam que Camilo Antunes buscou apoio de figuras influentes no Ministério da Saúde, incluindo o então segundo no comando, Swenderberger Barbosa, conhecido como Berge, que na época tinha expectativa de assumir a presidência da Anvisa. Essa nomeação seria considerada estratégica pelo grupo, uma vez que a agência regula medicamentos, incluindo produtos à base de cannabis medicinal.
Conforme registros obtidos pela Polícia Federal, Camilo Antunes se reuniu com a lobista Roberta Luchsinger e Berge em um restaurante de Brasília, em uma tentativa de acelerar o andamento do projeto. As conversas telefônicas indicam uma cobrança frequente por parte de Roberta para marcar encontros ou almoços com Berge, além de insatisfação de Camilo Antunes com a falta de resultados concretos. Em uma mensagem, ele questionou se Roberta estava na folha de pagamento, sugerindo que ela deveria resolver a situação.
No início de 2024, Roberta enviou orientações a Marcola, outro interlocutor, sobre o que Berge deveria procurar no Ministério da Saúde. No mês seguinte, Berge afirmou que iria atualizar suas conversas com a lobista. Após o envio de um rascunho de ato que dispensaria licitação para a compra de material derivado de canabidiol, Roberta voltou a cobrar Lulinha, nome pelo qual Fábio Luís Lula da Silva é conhecido, para que ele se articulasse dentro do governo.
Durante uma sabatina no Jornal Nacional, em 27 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou não conhecer Roberta Luchsinger, chamando-a de “pilantra”. No entanto, opositores ressaltaram que ela publicou diversas fotos ao lado do próprio Lula nas redes sociais, evidenciando possíveis contatos anteriores.
Apesar de toda a movimentação, o projeto envolvendo a World Cannabis não avançou. Além disso, as denúncias relacionadas a esquemas de descontos e desvios envolvendo aposentados e pensionistas do INSS, que vieram à tona posteriormente, também atingiram o grupo investigado, interrompendo os planos inicialmente traçados por Camilo Antunes e seus aliados.









