Arqueólogos realizaram uma escavação de resgate no centro histórico de Kolomna, na Rússia, e encontraram um significativo conjunto de mais de 2.600 moedas de prata enterradas em uma pequena jarra de cerâmica. Considerado o maior tesouro de moedas da primeira metade do século XV já disponível para estudos, o achado levanta hipóteses de que possa ter pertencido a uma pessoa de alta condição social que faleceu durante uma das ondas de peste que atingiram a região entre os anos de 1424 e 1427.
A descoberta ocorreu durante trabalhos conduzidos por uma equipe do Instituto de Arqueologia da Academia Russa de Ciências. Segundo comunicado divulgado em 26 de agosto, o recipiente foi localizado enterrado em uma cova natural rasa na antiga área urbana de Kolomna, próxima ao Kremlin, uma fortaleza que usualmente servia como sede administrativa e militar na época. A proximidade do sítio com o Kremlin reforça a hipótese de que o proprietário das moedas tinha alguma ligação com a elite local ou com as autoridades da cidade.
O conjunto de moedas é predominantemente composto pelas chamadas dengas, uma denominação de prata utilizada nos principados russos medievais. Cada denga equivalia a meia copeque, e 100 copeques correspondiam a um rublo, moeda de maior valor na época. Para contextualizar, na cotação atual, um rublo equivale a aproximadamente R$ 0,06. A produção dessas moedas ocorreu principalmente durante os reinados de Vasily I Dmitrievich (1389-1425) e Vasily II Vasilyevich, conhecido como “o Escuro” (1425-1462), ambos grão-príncipes de Moscou.
A quantidade de moedas encontrada indica que o proprietário possuía recursos consideráveis, sugerindo que integrava as camadas mais altas da sociedade daquele período. Entre as possibilidades levantadas pelos pesquisadores, estão a de que ele poderia ter sido um alto funcionário ligado ao grão-príncipe, um oficial de autoridade ou um comerciante de sucesso. A presença de moedas de alta qualidade e variedade reforça a hipótese de uma pessoa com influência econômica ou política na região.
Um aspecto especialmente relevante da descoberta é a quantidade de moedas cunhadas na própria Kolomna, incluindo exemplares extremamente raros, como moedas que retratam um pássaro em voo. Essas peças, cunhadas nos últimos anos do reinado de Vasily Dmitrievich, aparecem com pouca frequência em outros tesouros encontrados em diferentes regiões russas. Algumas dessas moedas são tão únicas que não estavam presentes nem mesmo nas principais coleções numismáticas dos maiores museus do país.
O exame preliminar já identificou mais de 350 variedades de moedas até o momento, muitas delas com diferenças sutis nos desenhos, indicando que foram produzidas com diferentes pares de cunhos. Essas variações oferecem uma oportunidade valiosa para reconstruir a sequência de produção das moedas, permitindo aos arqueólogos estabelecer uma cronologia de fabricação e circulação na região ao longo de pelo menos 15 anos. A análise dos diferentes cunhos pode ajudar a compreender melhor a cadeia tecnológica de produção e a evolução das moedas ao longo do tempo.
O tamanho do conjunto também fornece uma espécie de fotografia da circulação monetária em Kolomna, que na época era a segunda cidade mais importante do principado russo, atrás apenas de Moscou. A predominância de moedas emitidas pelos grão-príncipes, ao invés de peças de governantes regionais menores, reflete a posição política da cidade, que permaneceu sob controle direto do grão-príncipe durante grande parte daquele período. Assim, o tesouro não só revela detalhes sobre a economia local, mas também oferece insights sobre a influência política de Kolomna na época.
O motivo pelo qual o tesouro foi enterrado permanece incerto. No entanto, a datação das moedas mais recentes, cunhadas na segunda metade da década de 1420, durante o governo de Vasily II, sugere que o ocultamento ocorreu nesse mesmo período. Uma hipótese que ganha força entre os especialistas é a de que o proprietário tenha escondido seu dinheiro durante uma das ondas de peste que devastaram a região entre 1424 e 1427, vindo a falecer sem conseguir recuperá-lo.
Apesar dessa possibilidade, não há atualmente evidências diretas que confirmem a identidade do dono ou que ele tenha morrido por causa da peste. A descoberta, contudo, oferece uma janela importante para compreender aspectos econômicos, sociais e históricos do século XV na Rússia, além de contribuir para a compreensão das consequências das epidemias na época.







