Pesquisadores da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, em parceria com o Serviço Geológico da Dinamarca e da Groenlândia, capturaram imagens inéditas de um ecossistema marinho localizado na extremidade marinha da geleira Naajat Sermiat, no sul da Groenlândia. Essas imagens revelam uma diversidade de espécies marinhas que habitam áreas próximas às geleiras, uma região até então considerada inóspita e de difícil acesso para estudos diretos. A descoberta foi realizada por meio de um veículo operado remotamente (ROV), equipado com câmeras, devido aos riscos associados ao desprendimento de grandes blocos de gelo na área, que poderiam colocar em perigo mergulhadores.
O registro mostra uma variedade de organismos, incluindo krill, peixes, vermes, crustáceos, anfípodes, copépodes, lulas, camarões, águas-vivas e larvas de caranguejo, além de alguns seres vivos observados sobre a superfície do gelo. A pesquisa, publicada em 28 de agosto na revista científica Communications Earth & Environment, foi liderada pela oceanógrafa especializada em ambientes árticos, Fleur Rooijakkers. O objetivo inicial do estudo era compreender o que ocorre com a água de degelo ao atingir o oceano, especialmente se ela poderia congelar novamente devido às temperaturas abaixo de zero que a acompanham ao se desprender da geleira.
Durante as primeiras incursões, os pesquisadores detectaram a presença de peixes, o que já indicava uma atividade biológica significativa na área. Na sequência, as imagens revelaram uma comunidade marinha mais extensa do que a esperada, incluindo organismos que descansavam na própria geleira. Segundo Rooijakkers, a descoberta de um ecossistema tão ativo na fronteira entre gelo e oceano é surpreendente e sugere que o material liberado pela geleira pode desempenhar um papel importante na sustentação dessa vida marinha.
A presença de uma grande quantidade de animais próximos à geleira não é uma novidade para cientistas e pescadores na região, que sabem que áreas próximas às geleiras tendem a apresentar maior concentração de peixes. Uma hipótese que explica esse fenômeno é que a água de degelo, carregada pela base da geleira, transporta nutrientes que elevam a fertilidade do ambiente oceânico, favorecendo o crescimento do fitoplâncton e, por consequência, sustentando toda a cadeia alimentar local. Contudo, as novas imagens sugerem uma possibilidade adicional: o próprio material liberado pela geleira, como sedimentos e algas, pode atuar como fonte direta de alimento para os organismos marinhos.
Os pesquisadores observaram que o krill, uma espécie fundamental na cadeia alimentar polar, parecia nadar ativamente em direção às plumas de sedimentos que emergem da geleira. Esse comportamento indica que esses sedimentos podem fornecer nutrientes essenciais, reforçando a hipótese de que o material desprendido do gelo tem um papel nutritivo importante. Essa relação já havia sido documentada na Antártica, onde krill se alimentam de plumas de água de degelo, mas nunca tão próximo à frente de uma geleira na região do Ártico.
A pesquisa também levanta questões relacionadas ao impacto das mudanças climáticas. Entre 2000 e 2020, 169 geleiras do Hemisfério Norte que antes terminavam no oceano recuaram para o interior do continente, um processo associado ao aquecimento global e às emissões de gases de efeito estufa. Caso a geleira Naajat Sermiat siga esse padrão de recuo, as condições ambientais que atualmente favorecem a concentração de vida na sua frente podem ser alteradas, possivelmente levando à diminuição da atividade biológica na região. No entanto, outros pontos dos fiordes e plataformas continentais podem continuar a promover a ressurgência de nutrientes, sustentando comunidades marinhas mesmo com o recuo das geleiras.
Por fim, os cientistas destacam que o papel das geleiras na dinâmica dos ecossistemas costeiros é fundamental e que sua perda pode modificar não apenas a paisagem da Groenlândia, mas também as redes alimentares que dependem dessas fontes de nutrientes. Ainda são necessárias mais pesquisas para entender completamente a contribuição das geleiras para a sustentação da vida marinha na região e os efeitos do seu recuo no equilíbrio ecológico do Ártico.








