Um recente estudo baseado em um livro de memórias redescoberto revela detalhes inéditos sobre a vida de Shadrack Byfield, veterano britânico da Guerra de 1812, que participou de batalhas entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Em 1814, Byfield foi atingido por uma bala de mosquete que feriu seu antebraço esquerdo de forma grave, levando à amputação da parte inferior do membro sem o uso de anestesia, procedimento comum na época. No entanto, sua história não se limita ao campo de batalha.
Segundo relatos do próprio Byfield, após a cirurgia, um médico descartou seu braço amputado, jogando-o em um monte de esterco. Revoltado, o soldado recuperou o membro e decidiu enterrá-lo de maneira digna, construindo um pequeno caixão com tábuas improvisadas. Recentemente, pesquisas acadêmicas indicam que sua trajetória foi mais complexa do que a narrativa tradicional de um veterano britânico que suportou as consequências da guerra em silêncio. Documentos autobiográficos recém-descobertos mostram um homem que enfrentou dores crônicas, dificuldades financeiras, desemprego e conflitos com autoridades, enquanto buscava uma pensão condizente com seus sacrifícios.
A pesquisa, publicada em janeiro na revista científica Journal of British Studies, foi conduzida pelo historiador Eamonn O’Keeffe, da Memorial University, no Canadá. O’Keeffe encontrou uma versão inédita da autobiografia de Byfield, intitulada “History and Conversion of a British Soldier”, publicada em 1851 e conservada na biblioteca da Western Reserve Historical Society, em Cleveland, Estados Unidos. Essa descoberta trouxe à luz detalhes que ajudam a compreender melhor a experiência de um soldado que, após a guerra, enfrentou não apenas a dor física, mas também o estigma social e as dificuldades de reintegração.
Nascido em 1789, próximo a Bradford-on-Avon, na Inglaterra, Byfield ingressou na milícia aos 18 anos e, em 1809, incorporou-se ao exército regular, sendo enviado ao Canadá para integrar o 41º Regimento de Infantaria. Quando os Estados Unidos declararam guerra ao Reino Unido, em 1812, ele estava em Fort George, às margens do rio Niágara, participando de batalhas importantes, inclusive sobrevivendo a um ferimento no pescoço. Dois anos depois, durante uma batalha, foi atingido por uma bala no braço esquerdo, que resultou na amputação brutal, sem anestesia, uma experiência que marcou profundamente sua vida futura.
Após o conflito, Byfield viajou a Londres para buscar uma pensão no Royal Hospital Chelsea, recebendo apenas nove pence por dia — valor equivalente a cerca de R$ 34 a R$ 68 na moeda atual — considerado insuficiente por ele. De volta à Inglaterra, precisou reconstruir sua vida profissional, tendo trabalhado inicialmente como tecelão. Com a perda do antebraço, sua capacidade de atuar na profissão foi prejudicada, mas ele criou uma prótese com a ajuda de um ferreiro local, inspirando-se em um sonho. O dispositivo, que substituía as funções do braço amputado, permitiu-lhe retomar a tecelagem, embora com dificuldades.
Byfield relatou que a prótese foi fundamental para sua reintegração ao trabalho, mesmo enfrentando limitações, como a exaustão ao realizar tarefas com uma única mão. Além da atividade na tecelagem, ele também trabalhou transportando pessoas doentes por Bath, usando cadeiras de rodas e liteiras, enquanto continuava a reivindicar uma pensão maior, obtendo um aumento em 1836 com o apoio de Sir William Napier, militar aposentado e importante aliado.
Porém, a narrativa de Byfield foi retratada de forma mais complexa na autobiografia de 1851, escrita 11 anos após a primeira, na qual ele admitiu episódios de comportamento questionável, como deixar acampamentos sem autorização e participar de expedições de pilhagem. Além disso, descreveu períodos de doença, dívidas e desemprego que não estavam presentes na versão anterior. O autor buscava, nesta obra, uma narrativa de redenção espiritual, passando de um “pecador rebelde” a um cristão devoto.
Os documentos também revelam que, mesmo após a amputação, Byfield sofreu dores reumáticas no ombro direito, que permanecia intacto, e que o acompanhariam por quase três anos, dificultando suas tarefas diárias. Sua trajetória demonstra o esforço físico extremo para continuar trabalhando numa época de recursos limitados de reabilitação e próteses rudimentares.
Além das dificuldades físicas, Byfield enfrentou conflitos na vida social e comunitária. Em 1853, envolveu-se em uma disputa por controle de uma capela batista em Hawkesbury Upton, Gloucestershire, que resultou em processos judiciais, acusações de vandalismo e tumultos. Durante um confronto na capela, foi acusado de ferir um adversário com o gancho de ferro de sua prótese, embora tenha negado a agressão. Apesar de não ter sido condenado, perdeu seu cargo de zelador de um monumento dedicado ao general Lord Edward Somerset.
Esses episódios revelam um homem que não se conformou passivamente às dificuldades impostas pela guerra e pela deficiência, mas que constantemente buscou defender seus direitos e autonomia, enfrentando empregadores, autoridades e membros da comunidade.
Byfield retornou a Bradford-on-Avon em 1856, casou-se novamente e continuou recebendo uma pensão de Sir William Napier, embora sem sucesso em obter novos aumentos. Em 1867, publicou uma autobiografia intitulada “The Forlorn Hope”, da qual não há exemplares conhecidos. Por muito tempo, acreditou-se que ele teria falecido por volta de 1850, antes da publicação de sua autobiografia de 1851. No entanto, sabe-se hoje que Shadrack Byfield morreu em janeiro de 1874, aos 84 anos, deixando um legado de resistência e luta por reconhecimento.









