Pesquisas recentes indicam que alguns esturjões-do-lago (Acipenser fulvescens), habitantes dos Grandes Lagos na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, podem alcançar idades superiores a 400 anos, atravessando aproximadamente 15 gerações humanas. A descoberta, publicada em abril no Journal of Fish Biology, sugere que esses peixes, considerados entre os vertebrados mais longevos do planeta, podem ser os de água doce com maior expectativa de vida já registrada. Embora os autores do estudo ressaltem que as estimativas ainda precisam ser confirmadas por métodos independentes, os resultados representam uma mudança significativa na compreensão da longevidade dessa espécie.
O esturjão-do-lago é o maior peixe presente nos Grandes Lagos, podendo atingir entre 1,2 e 1,8 metro de comprimento e pesar de 14 a 36 kg. Apesar de possuir um esqueleto predominantemente cartilaginoso, ele pertence ao grupo dos peixes ósseos, cuja linhagem remonta a cerca de 200 milhões de anos, muito anterior ao surgimento da espécie humana. Até então, a expectativa de vida desses animais era estimada entre 50 e 100 anos, com registros históricos de um indivíduo capturado em 1953 na fronteira entre Minnesota e o Canadá, que tinha 154 anos, sendo considerado o mais velho documentado até então.
Para determinar a longevidade, os pesquisadores analisaram dados de milhares de esturjões coletados entre 1980 e 2024 em cinco cursos d’água associados aos Grandes Lagos Superiores: Black Lake, Sturgeon River, Menominee River, St. Clair River e Lake Winnebago. A estimativa de idade foi realizada principalmente por meio do método de captura-marcação-recaptura, uma técnica que envolve capturar os peixes, registrar suas características, marcar cada um com uma etiqueta de identificação e devolvê-los ao ambiente natural. Quando um peixe é recapturado posteriormente, os cientistas podem identificar o indivíduo e comparar seu tamanho ao registro anterior, permitindo calcular sua taxa de crescimento ao longo do tempo.
Esse procedimento possibilitou reconhecer alguns esturjões até 42 anos após a marcação inicial. Com esses dados, os pesquisadores desenvolveram uma equação para estimar a idade de exemplares de tamanhos próximos aos maiores observados, chegando a estimativas de até 435 anos para machos de 1,60 metro e até 248 anos para fêmeas de 1,80 metro. Destes, alguns indivíduos apresentaram idades medianas estimadas de até 435 anos para machos e 292 anos para fêmeas. No entanto, esses números representam estimativas baseadas no crescimento observado e ainda requerem confirmação por técnicas como a datação por radiocarbono, que mede a quantidade de carbono radioativo remanescente nos tecidos biológicos.
A possibilidade de uma longevidade tão elevada tem implicações diretas na conservação da espécie. No século XIX, estima-se que cerca de 15 milhões de esturjões-do-lago habitavam os Grandes Lagos, porém, atualmente, essa população caiu para menos de 1% desse número. A exploração descontrolada, especialmente no início do século XX, foi apontada como principal fator para o declínio, agravado pelo lento ritmo de reprodução da espécie. As fêmeas, por sua vez, atingem a maturidade sexual entre 20 e 25 anos e podem se reproduzir apenas a cada quatro a nove anos, dificultando a recuperação populacional.
A descoberta de que alguns desses peixes podem ter sobrevivido a décadas de exploração intensiva reforça a necessidade de medidas de preservação. Como sua reposição natural ocorre de forma extremamente lenta, a proteção de indivíduos adultos torna-se essencial para garantir a manutenção e recuperação da espécie. A confirmação da longevidade extraordinária dos esturjões-do-lago pode, assim, influenciar estratégias de conservação e manejo sustentável, contribuindo para a preservação de uma espécie que desempenha papel importante na biodiversidade dos Grandes Lagos.








