Uma espécie de ameba, identificada como Incendiamoeba cascadensis e popularmente denominada de “ameba de fogo”, foi encontrada em águas geotérmicas no Parque Nacional Vulcânico Lassen, na Califórnia, nos Estados Unidos. Essa descoberta representa um avanço significativo na compreensão dos limites de tolerância térmica de organismos eucarióticos, especialmente no que diz respeito à sua capacidade de reprodução em ambientes de alta temperatura. A espécie conseguiu não apenas sobreviver, mas também se reproduzir a temperaturas de até 63°C, estabelecendo um novo recorde para organismos desse grupo, que inclui células com núcleo e estruturas internas complexas. Antes dessa descoberta, o limite máximo conhecido para a reprodução de eucariotos era de aproximadamente 60°C, uma marca atingida por algumas espécies de fungos e algas vermelhas. Além disso, a ameba demonstra atividade motora — deslocando-se em busca de alimento — em temperaturas que chegam a 64°C, um dado que reforça sua singularidade entre os extremófilos, organismos que prosperam em condições ambientais extremas. Os achados foram publicados na revista científica Cell nesta terça-feira, dia 22 de outubro.
A relevância do estudo vai além do simples recorde de temperatura. Comparado a bactérias e arqueas, que também vivem em ambientes vulcânicos e podem suportar altas temperaturas, o feito de I. cascadensis destaca-se pelo fato de ser um organismo eucariótico, cuja complexidade celular era anteriormente considerada uma limitação para a sobrevivência em ambientes tão quentes. O avanço sugere que células com núcleo e estruturas internas complexas podem, sim, suportar condições de calor extremo, desafiando antigas hipóteses que limitavam a estabilidade das membranas e das proteínas dessas células acima de aproximadamente 62°C.
Para compreender a dificuldade dessa adaptação, é importante considerar a estrutura interna das células. Bactérias e arqueas, que são procariontes, não possuem núcleo delimitado por membranas ou outras estruturas internas, o que facilita sua resistência a temperaturas elevadas. Já os eucariotos possuem um núcleo e organelas como as mitocôndrias, essenciais para processos como a produção de energia. O calor excessivo, contudo, pode desnaturar proteínas e alterar a integridade das membranas celulares, comprometendo a funcionalidade de todo o organismo. Portanto, a descoberta de I. cascadensis sugere que esses organismos podem ter desenvolvido mecanismos específicos para manter a estabilidade de suas proteínas e membranas em temperaturas extremas.
A pesquisa envolveu a coleta de amostras ao longo de três anos, entre 2023 e 2025, em 20 locais diferentes de áreas geotérmicas do parque, onde as temperaturas variavam entre 49°C e 65°C. Os cientistas conseguiram isolar a espécie em 14 desses locais. Analisando seu genoma e o comportamento de seus genes em diferentes temperaturas, os pesquisadores identificaram genes relacionados à proteção do DNA, percepção do ambiente e manutenção da estrutura das proteínas. Entre as proteínas produzidas por I. cascadensis, foram encontradas características semelhantes às de bactérias e arqueas termofílicas, organismos adaptados a altas temperaturas. Além disso, fragmentos de DNA dessa ameba foram encontrados em bancos de dados de ambientes geotérmicos, incluindo locais como o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, e regiões na Nova Zelândia. Esses achados indicam a possibilidade de que outras amebas termofílicas possam existir em fontes termais ao redor do planeta, ainda não identificadas.
A importância do estudo também se estende ao campo da astrobiologia, que investiga a possibilidade de vida fora da Terra. Os extremófilos, como I. cascadensis, ajudam a estabelecer os limites físicos e químicos da vida, ampliando o entendimento sobre os ambientes que podem suportar seres vivos complexos. A descoberta sugere que, sob condições específicas de temperatura, além de fatores como pH, oxigênio, pressão, água e nutrientes, células eucarióticas podem resistir a ambientes considerados inóspitos. Contudo, a pesquisadora principal, Beryl Rappaport, da Universidade de Syracuse, reforça que a presença de uma espécie capaz de reproduzir-se a 63°C não implica que qualquer ambiente quente seja habitável por esses organismos, uma vez que outros fatores ambientais também são essenciais para sua sobrevivência. A descoberta, portanto, amplia o conhecimento sobre os limites da vida, desafiando antigas suposições e abrindo novas possibilidades para a busca por vida em ambientes extremos.









