O Cerrado brasileiro, um bioma caracterizado por sua vegetação aberta, composta principalmente por plantas rasteiras e algumas árvores de troncos retorcidos, enfrenta uma transformação significativa. A exclusão prolongada de incêndios naturais, como aqueles provocados por raios, tem levado a um aumento no número de árvores e a uma consequente diminuição das gramíneas, ervas e subarbustos. Esse fenômeno é conhecido como “adensamento lenhoso” e tem mudado a paisagem do Cerrado, que, ao invés de se manter como uma savana aberta, está se tornando cada vez mais semelhante a uma mata fechada.
A pesquisa que revela esses impactos foi conduzida pelo pesquisador Davi Rodrigo Rossatto, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (FCAV-Unesp), e os resultados foram publicados na revista Annals of Botany em maio. Anteriormente, acreditava-se que a redução das plantas rasteiras no Cerrado estava relacionada à intolerância dessas espécies à sombra. No entanto, o estudo de Rossatto apresenta uma nova perspectiva, apontando que a causa principal para a morte dessas plantas é a inanição de carbono, um processo que ocorre quando as reservas energéticas das plantas se esgotam.
Rossatto, que tem se dedicado ao estudo das herbáceas do Cerrado, observou que, com o aumento do adensamento, as plantas rasteiras conseguem sobreviver por um tempo, mas eventualmente desaparecem. Essa extinção não ocorre de forma imediata, como seria esperado apenas pela intolerância à sombra, o que levou o pesquisador a buscar uma explicação mais aprofundada.
Para chegar a essas conclusões, a equipe de pesquisa analisou dados de áreas do Cerrado que apresentavam diferentes níveis de adensamento. Foram medidas as quantidades de luz que atingem as plantas, essenciais para a fotossíntese. Os resultados mostraram que, em áreas abertas do bioma, as plantas rasteiras recebem entre 400 e 1.700 micromoles de partículas de luz por segundo, uma quantidade considerável. Em contraste, em áreas sombreadas por árvores maiores, a luminosidade cai drasticamente para apenas 6 a 30 micromoles, um nível insuficiente para a sobrevivência das plantas.
Sem a luz necessária para realizar a fotossíntese, as plantas rasteiras tentam se adaptar, desenvolvendo folhas que conseguem sobreviver em condições de sombra. Contudo, esse processo de adaptação consome uma quantidade significativa de carbono armazenado, levando à inanição progressiva. Rossatto se refere a essas áreas como o “Reino da Inanição”, onde as plantas, embora consigam se adaptar, enfrentam um aumento na respiração celular que consome energia e uma queda na fotossíntese, resultando em um balanço de carbono negativo.
Os pesquisadores enfatizam que, embora as plantas não sejam tão intolerantes à sombra quanto se pensava, a adaptação à baixa luminosidade tem limites. O aumento da respiração celular pode chegar a 80%, enquanto a capacidade de fotossíntese diminui entre 30% e 40%. Essa dinâmica revela que a plasticidade das plantas é insuficiente para lidar com as condições adversas do “Reino da Inanição”.
Atualmente, os resultados obtidos são baseados em observações, e os cientistas planejam realizar testes práticos em ambientes controlados e em campo para validar suas hipóteses. A pesquisa destaca a importância de compreender as mudanças no Cerrado e suas implicações para a biodiversidade e a conservação desse bioma essencial.









