Espécies invasoras representam uma ameaça significativa à biodiversidade de ecossistemas aquáticos e terrestres. No rio West Fork Black, localizado no estado do Arizona, nos Estados Unidos, uma iniciativa inovadora tem sido implementada para combater a proliferação da truta-das-fontes (Salvelinus fontinalis), uma espécie invasora que compete por espaço com peixes nativos, como a truta Apache (Oncorhynchus apache) e o chub-de-cauda-redonda (Gila robusta).
Para enfrentar esse desafio, biólogos desenvolveram uma estratégia baseada na criação de uma linhagem de peixes invasores geneticamente modificados, conhecidos como “supermachos” ou machos Trojan YY. Esses peixes foram modificados de modo a conter dois cromossomos Y, uma alteração que garante que, ao se reproduzirem com fêmeas, todas as descendências sejam machos. Essa abordagem visa, ao longo do tempo, reduzir a população de peixes invasores, uma vez que a reprodução resultará em uma população composta exclusivamente por machos idosos, levando à extinção progressiva da linhagem invasora.
O experimento teve início há aproximadamente seis anos e já apresenta resultados encorajadores. No rio West Fork Black, a proporção de trutas machos na população aumentou para 61% no último ano. Além disso, outros dois riachos em Idaho, também submetidos à mesma estratégia, atingiram 100% de eficácia, eliminando completamente a presença da espécie invasora nesses corpos d’água. Os resultados detalhados do estudo foram publicados na revista Transactions of the American Fisheries Society em junho de 2026.
Tradicionalmente, o combate às espécies invasoras de peixes é realizado por métodos como o uso de venenos, como a rotenona, ou por pesca elétrica. No entanto, esses métodos apresentam limitações, pois muitas vezes não atingem a totalidade da população invasora e podem afetar espécies nativas. A rotenona, por exemplo, mata tanto os peixes invasores quanto os nativos, enquanto a pesca elétrica enfrenta dificuldades em grandes corpos d’água, dificultando a eliminação completa dos invasores.
Atualmente, a técnica dos machos Trojan vem sendo adotada por nove estados norte-americanos, com oito deles realizando testes em riachos. No estado do Novo México, por exemplo, a população de supermachos de truta chegou a representar 90% da população total de peixes invasores. Essa estratégia tem se mostrado uma alternativa promissora, com potencial para substituir métodos tradicionais de controle, mais destrutivos e menos eficientes.
Os pesquisadores também estão expandindo o uso dessa técnica para outras espécies. Testes estão sendo conduzidos com uma lista de pelo menos dez espécies adicionais, incluindo o lúcio-do-norte (Esox lucius), o bagre-do-canal (Ictalurus punctatus) e alguns anfíbios. Apesar do avanço, o estudo ressalta que nem todas as espécies invasoras podem ser controladas por esse método, uma vez que algumas possuem a capacidade de alterar seu sexo dependendo de fatores ambientais, como temperatura da água ou densidade populacional. Além disso, a eficácia da técnica diminui em corpos d’água de grande porte, onde a quantidade de animais necessários para a intervenção se tornaria excessiva, dificultando sua aplicação em larga escala.








