Em 15 de julho de 1926, a renomada cientista franco-polonesa Marie Curie desembarcou no Rio de Janeiro, aos 58 anos, em uma visita que durou aproximadamente seis semanas e que deixou um legado duradouro para a ciência brasileira e o movimento de mulheres no país. Na ocasião, Curie, única pessoa na história a conquistar dois Prêmios Nobel em áreas distintas — Física e Química —, veio ao Brasil em um momento em que a pesquisa científica ainda começava a se consolidar por aqui. Sua passagem pelo país, que incluiu visitas a diversas regiões e instituições, contribuiu para fortalecer a comunidade científica nacional e inspirar mudanças sociais, especialmente no campo da participação feminina na ciência.
Durante sua estadia, Marie Curie percorreu cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, visitando aproximadamente 13 instituições científicas e participando de atividades acadêmicas e de divulgação. Entre suas ações mais relevantes, destacou-se a realização de um curso de 11 aulas sobre radioatividade na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, que foi transmitido pela Rádio Sociedade, ampliando seu alcance para além do público presente. Além disso, apresentou conferências na Academia Nacional de Medicina e nas faculdades de Medicina de São Paulo e Belo Horizonte, abordando aplicações da radioatividade no tratamento de doenças e detalhando a organização do Instituto Curie, em Paris.
O impacto de sua visita também foi evidenciado por uma pesquisa inédita que apresentou na Academia Brasileira de Ciências em 24 de agosto de 1926. Em vez de uma palestra de divulgação, Curie expôs resultados de um estudo sobre a invariância das constantes radioativas, trabalho que só seria publicado internacionalmente três anos depois. Essa iniciativa demonstrou o quanto ela valorizava a comunidade científica brasileira, ao aproximar pesquisadores locais das discussões mais recentes do campo da radioatividade antes mesmo de sua divulgação oficial.
Especialistas como Ildeu de Castro Moreira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Ciências, ressaltam que a visita de Curie deixou três legados principais: o estímulo à pesquisa em radioatividade, o fortalecimento das instituições científicas brasileiras e a valorização do papel da mulher na ciência. Nesse contexto, sua presença ajudou a legitimar a importância da ciência no Brasil, que na época ainda tinha uma estrutura incipiente, e incentivou a criação de faculdades de ciências, como a Universidade de São Paulo, fundada dez anos após sua visita.
A visita de Marie Curie também teve forte impacto no campo da saúde, ao reforçar a relevância da radioterapia no tratamento de câncer. Sua presença em hospitais e centros de pesquisa dedicados ao uso médico da radioatividade, incluindo o Instituto do Radium em Belo Horizonte — criado poucos anos antes, sendo o segundo do mundo nesse campo —, contribuiu para dar maior visibilidade às aplicações médicas da radioatividade no Brasil. Doações de agulhas de rádio para o tratamento de câncer simbolizaram essa aproximação entre o Instituto Curie e os serviços médicos brasileiros.
No âmbito social, a cientista manteve contato próximo com integrantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderada por Bertha Lutz, defendendo o direito das mulheres à educação e à participação na sociedade. Sua trajetória, marcada por conquistas como a obtenção de dois Prêmios Nobel, inspirou as brasileiras na luta por espaço acadêmico e pelo direito ao voto, conquistado em 1932. Além disso, Marie Curie foi a primeira mulher a ser eleita membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências, ocorrendo por aclamação durante sua visita, um reconhecimento significativo diante do episódio de rejeição que enfrentou na Academia Francesa de Ciências.
Ao deixar o Brasil em 28 de agosto de 1926, Marie Curie expressou publicamente sua gratidão pela recepção e enviou cartas de reconhecimento às instituições brasileiras. Sua impressão do país foi positiva, e a cobertura da imprensa refletiu um sentimento de admiração, apesar de alguns estereótipos de gênero presentes na época. Sua visita, portanto, não apenas elevou o prestígio da ciência no Brasil, mas também reforçou a importância da participação feminina no universo científico, marcando um momento de transformação cultural e acadêmica que reverbera até hoje.








