Uma equipe de pesquisadores italianos está empregando uma abordagem inovadora para combater a expansão do caranguejo-azul (Callinectes sapidus) no Mar Adriático, uma espécie invasora que tem causado prejuízos significativos à pesca e à produção de mariscos na região da Emilia-Romagna. Desde junho, os cientistas da Universidade de Bolonha já liberaram aproximadamente 80 mil filhotes de polvo-comum (Octopus vulgaris) no litoral italiano, na esperança de que esses predadores naturais possam ajudar a conter a proliferação do crustáceo invasor.
A iniciativa, denominada Octo-Blu, foi lançada no ano passado com financiamento da região da Emilia-Romagna, uma das áreas mais afetadas pelos danos econômicos e ambientais causados pelo caranguejo-azul. Segundo Antonio Casalini, técnico em aquicultura e integrante do projeto, a escolha do polvo se deu por sua capacidade natural de predar crustáceos, o que poderia contribuir para diminuir a população do invasor. Casalini explicou à Agência France-Presse (AFP) que “na natureza, o polvo é um predador formidável de crustáceos”, reforçando a estratégia de usar uma espécie nativa como controle biológico.
O caranguejo-azul, originário da costa atlântica da América do Norte, chegou ao Mediterrâneo há várias décadas, provavelmente transportado por navios através da água de lastro. Nos últimos anos, sua população aumentou de forma acelerada na região, impulsionada pelo aquecimento das águas decorrente das mudanças climáticas, o que favorece sua sobrevivência e reprodução. A espécie, que pode atingir até 1 quilo de peso e possui garras afiadas capazes de abrir conchas, tornou-se uma ameaça particularmente grave na costa nordeste da Itália, uma das principais áreas de produção de amêijoas na Europa. Além de seu tamanho e habilidade de nadar, o fato de poucos predadores naturais na região reforça sua capacidade de proliferação descontrolada.
Para tentar controlar a invasão, os pesquisadores criam os polvos em tanques de água salgada em Cesenatico, uma cidade portuária italiana. Quando os filhotes atingem o estágio adequado de desenvolvimento, são transportados em grandes sacos plásticos até o litoral, muitas vezes utilizando os próprios barcos de pesca locais. Os animais são então liberados próximos a recifes subaquáticos, onde foram instaladas tocas artificiais feitas de cimento e argila, visando oferecer abrigo e aumentar as chances de sobrevivência dos polvos.
Desde o início do projeto, cerca de 80 mil polvos já foram liberados na natureza, com a meta de chegar a aproximadamente 160 mil até o final de agosto. Como uma única fêmea pode produzir milhões de ovos, os pesquisadores esperam estabelecer uma pequena comunidade de polvos na área costeira para atuar como uma espécie de controle biológico natural contra o caranguejo-azul. Casalini afirmou à AFP que a estratégia visa criar uma população de predadores que possa ajudar a conter a disseminação do crustáceo invasor.
No entanto, os próprios cientistas reconhecem que a iniciativa apresenta limitações. O polvo-comum, por exemplo, não costuma habitar as águas rasas, quentes e arenosas típicas de algumas áreas afetadas pelos caranguejos-azuis, o que pode limitar seu impacto nesses ambientes específicos. Outros especialistas sugerem que predadores como o robalo poderiam ser mais eficientes na predação dos crustáceos invasores. A equipe da Universidade de Bolonha também investiga o uso de enguias, que se alimentam de ovos de crustáceos, como uma estratégia complementar.
Apesar dessas limitações, os pesquisadores avaliam que, se a experiência for bem-sucedida e puder ser replicada em outras regiões, ela poderá contribuir para reduzir a quantidade de caranguejos-azuis na região do Mar Adriático, minimizando seus impactos sobre o ecossistema e a atividade pesqueira local. A iniciativa representa uma tentativa de aplicar soluções inovadoras e sustentáveis no combate à invasão de espécies exóticas, buscando equilibrar a preservação ambiental com a economia regional.








