O governo do Reino Unido anunciou um projeto inovador que visa modificar as rotas de aviões comerciais, utilizando tecnologia de inteligência artificial (IA), com o objetivo de diminuir os efeitos da aviação no aquecimento global. A iniciativa, denominada Operação Blue Skies, pretende realizar testes no espaço aéreo de Shanwick, uma região controlada pela principal autoridade de tráfego aéreo do país, a NATS, localizada na parte leste do corredor do Atlântico Norte. Esses testes visam ajustar as altitudes das aeronaves com base em análises atmosféricas, de modo a evitar áreas propensas à formação de rastros de condensação, conhecidos como contrails, que contribuem significativamente para o impacto climático da aviação.
A previsão é que a primeira rodada de experimentos ocorra em novembro deste ano, com uma segunda fase prevista para o mesmo mês de 2027. O projeto possui um orçamento estimado em £ 5 milhões, aproximadamente R$ 35 milhões na cotação atual, e será realizado ao longo de dois períodos de quatro meses, durante os invernos de 2026-2027 e 2027-2028. Os testes envolverão cerca de 20 a 40 dias de operações, com desvios pontuais nas rotas aéreas normais, permitindo que controladores de tráfego orientem algumas aeronaves a alterar suas altitudes em até 600 metros (cerca de 2 mil pés). Essas mudanças serão comunicadas pelos canais habituais de controle e também poderão auxiliar pilotos na evasão de turbulências e regiões atmosféricas favoráveis à formação de contrails persistentes.
Segundo a revista científica New Scientist, os contrails são fenômenos físicos e meteorológicos que ocorrem quando partículas de fuligem expelidas pelos motores a jato se transformam em pequenos cristais de gelo, formando linhas brancas visíveis no céu. Esses rastros podem permanecer por horas, refletindo a radiação solar durante o dia, o que pode gerar um efeito de resfriamento, mas também retêm calor na camada inferior, contribuindo para o aquecimento global. Estima-se que os contrails sejam responsáveis por aproximadamente um terço do impacto climático da aviação, tornando-se um alvo importante para ações de mitigação.
O espaço aéreo de Shanwick foi escolhido por sua relevância, pois representa cerca de 5% do aquecimento global relacionado à formação de rastros de condensação, especialmente durante o inverno no Hemisfério Norte, de novembro a fevereiro. Para a realização dos testes, será utilizado um modelo de inteligência artificial desenvolvido pelo Google, que analisará as condições atmosféricas em tempo real para prever onde há maior probabilidade de formação de contrails. Dessa forma, os aviões poderão ser desviados de regiões que potencializam o efeito de aquecimento, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa decorrentes de rotas alteradas.
A iniciativa conta com o apoio da organização Contrails.org, que participa do projeto e já realizou testes anteriores baseados em previsões de formação de contrails antes da decolagem. Segundo Marc Shapiro, representante da organização, a tecnologia permite prever as regiões propensas à formação de rastros e orientar os pilotos a evitá-las, contribuindo para a redução do impacto climático da aviação. Os testes também irão avaliar se os benefícios ambientais superam os custos adicionais de combustível e emissões de CO₂ provocados pelos desvios de rota.
Ao todo, estima-se que cerca de 10 mil aviões sobrevoarão o espaço aéreo durante os períodos de experimentação, com centenas sendo redirecionados para coletar dados suficientes para avaliar os resultados do projeto. A iniciativa representa uma tentativa de conciliar a operação aérea com metas de sustentabilidade, buscando uma redução efetiva na contribuição da aviação às mudanças climáticas, por meio de estratégias baseadas em tecnologia de ponta e análise atmosférica avançada.








