O estado do Oceano Pacífico no início de uma previsão pode ser determinante para antecipar, com até um ano de antecedência, a ocorrência e a intensidade de eventos de El Niño e La Niña. A conclusão é de um estudo publicado por cientistas australianos na revista Science Advances, em meio ao alerta da Organização Meteorológica Mundial (OMM) sobre o fortalecimento do El Niño e a possibilidade de o fenômeno atingir intensidade sem precedentes até o fim do ano.
Segundo a OMM, o atual cenário pode provocar um aquecimento recorde da superfície do Oceano Pacífico equatorial. Entre novembro e janeiro, as temperaturas da região podem chegar a até 3,8°C acima da média. Diante desse risco, a pesquisa australiana aponta uma possibilidade de melhorar a preparação de governos e sociedades para enfrentar eventos extremos associados às mudanças no padrão climático do Pacífico.
Os fenômenos fazem parte do El Niño-Oscilação Sul (ENOS), conjunto de variações naturais e irregulares que ocorrem, em média, a cada dois a sete anos. O ENOS envolve alterações na temperatura da superfície do mar, na pressão atmosférica e nos ventos que atuam sobre o Pacífico equatorial.
O El Niño ocorre quando há um aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico. Já a La Niña é marcada por um resfriamento acima do padrão normal. Apesar de se concentrarem em uma área específica do oceano, os dois fenômenos influenciam os padrões climáticos em diferentes partes do mundo, com reflexos em eventos como secas e inundações.
Normalmente, El Niño e La Niña atingem o auge em dezembro. Até agora, porém, as previsões consideradas seguras conseguiam antecipar esses eventos por cerca de seis meses. A ampliação desse prazo para até um ano poderia oferecer mais tempo para o planejamento e a comunicação de alertas relacionados aos impactos climáticos.
Condições iniciais influenciam a confiabilidade das previsões
Para chegar aos resultados, pesquisadores da Universidade de Melbourne e da CSIRO, a Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth, analisaram mais de 7.500 previsões históricas. Os dados foram produzidos por modelos climáticos desenvolvidos em nove países.
A equipe identificou que a condição do Pacífico no momento em que uma previsão é iniciada — se o oceano está sob influência de El Niño, La Niña ou em situação neutra — fornece informações importantes sobre a probabilidade de a projeção continuar confiável 12 meses depois.
Em todos os nove modelos avaliados, as previsões iniciadas durante períodos de La Niña apresentaram desempenho consistente mesmo com um ano de antecedência. Em contrapartida, aquelas iniciadas em condições neutras se mostraram consideravelmente menos confiáveis. O resultado indica que o estado inicial do oceano, um fator muitas vezes negligenciado, pode ter papel decisivo na precisão das previsões de longo prazo.
Para Mandy Freund, coautora do estudo e pesquisadora da Universidade de Melbourne, pode haver alguma característica específica da La Niña que torne o Pacífico tropical mais previsível no ano seguinte. Os cientistas, no entanto, ainda não investigaram em profundidade a razão desse comportamento.
Mesmo sem uma explicação completa para o mecanismo, os resultados sugerem que a população poderia receber alertas com maior antecedência sobre secas, inundações e outros impactos relacionados ao El Niño e à La Niña. “Ainda estamos a alguns passos de aplicar nossas descobertas aos modelos usados na prática pelas agências de previsão”, afirmou Ramesh. Segundo ele, as conclusões são promissoras para a comunicação de alertas precoces sobre eventos futuros.
Modelos de aprendizado de máquina podem ampliar a precisão
O estudo também mostrou que diferentes métodos de previsão podem apresentar desempenhos distintos. Os modelos tradicionais, baseados em princípios físicos, tiveram dificuldades principalmente quando as projeções começavam em condições neutras. Já modelos estatísticos e sistemas de aprendizado de máquina apresentaram resultados potencialmente mais promissores nesses casos.
De forma geral, os pesquisadores avaliam que a fase inicial do El Niño ou da La Niña pode ser um fator crítico para determinar a capacidade de antecipação dos fenômenos. Para a equipe, usar estrategicamente essa informação pode melhorar de maneira significativa as previsões de longo prazo do ENOS, além de aperfeiçoar a comunicação de riscos, a gestão de eventos climáticos extremos e as medidas de adaptação em diferentes regiões do mundo.








