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Estratégias de fidelidade reprodutiva de mamíferos marinhos enfrentam riscos devido às mudanças ambientais

12/09/2026
Em Ciência
Tempo de leitura:4 minutos de leitura
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Anualmente, espécies de mamíferos marinhos, como baleias, focas, leões-marinhos e elefantes-marinhos, realizam migrações de grande escala pelos oceanos com o objetivo de retornar às áreas de nascimento para dar à luz suas crias. Esse comportamento, conhecido na ciência como filopatria reprodutiva ou fidelidade ao local, constitui uma estratégia evolutiva de sucesso que, atualmente, encontra-se ameaçada por fatores ambientais causados pela ação humana e pelas mudanças climáticas.

A decisão de atravessar vastas extensões oceânicas em direção a pontos fixos não é aleatória. Segundo o biólogo Luís Felipe Tuon, professor do Colégio Oficina do Estudante, em Campinas, a previsibilidade do ambiente é a principal vantagem evolutiva dessa estratégia. Ele explica que retornar a locais que já se mostraram seguros e favoráveis anteriormente reduz custos de exploração de novos ambientes desconhecidos, aumentando as chances de sucesso reprodutivo. “É por segurança e previsibilidade. O local que já deu certo uma vez tem chance alta de dar certo de novo. Evita o custo enorme de ficar explorando novas praias e áreas de gelo desconhecidas”, afirma.

A bióloga Carol Braga, professora do Foco Medicina Vestibular no Rio de Janeiro, complementa que essa estratégia favoreceu a sobrevivência das espécies ao longo de gerações. Quando um ambiente oferece condições adequadas para acasalamento, parto e cuidado dos filhotes, retornar a esse local conhecido representa uma vantagem significativa. “Se aquele ambiente historicamente oferece abrigo, condições adequadas para os filhotes e boas chances de reprodução, voltar reduz a necessidade de procurar um novo local a cada ciclo reprodutivo”, destaca.

De acordo com Tuon, esse comportamento envolve um sistema de navegação multifacetado, que funciona como um “GPS biológico”. Os animais possuem capacidade de detectar o campo magnético da Terra devido à magnetita presente no cérebro, permitindo que leiam a assinatura magnética de praias ou baías específicas. Além disso, eles reconhecem o cheiro da colônia, o perfil da costa, a acústica submarina e as correntes marítimas, formando uma rede de referências para localizar seus locais de origem. A combinação de fatores genéticos e comportamentais reforça essa habilidade. “Existe uma base genética forte, o filhote já nasce com a tendência de imprimir o campo magnético do local onde nasceu, mas a rota exata é reforçada pelo aprendizado. É um comportamento com componente inato mais experiência”, explica.

Nos cetáceos, como baleias e golfinhos, essa transmissão cultural ocorre de forma direta: a mãe guia o filhote na primeira migração, e este memoriza a rota por meio de uma transmissão vertical. Os locais de reprodução atendem a critérios rigorosos, incluindo proteção contra predadores, energia ambiental adequada e baixo gasto energético para as fêmeas. Por exemplo, a baleia-jubarte nasce em águas quentes de Abrolhos, na costa brasileira, justamente porque ali orcas não entram, além de proporcionar uma temperatura ideal para filhotes sem uma camada de gordura bem desenvolvida. Essa estratégia também permite às mães jejuar durante a amamentação, sem precisar caçar.

A sincronização do nascimento de grandes grupos de filhotes reduz a probabilidade de predation. Quando milhares de filhotes nascem simultaneamente, a chance de um deles ser capturado por predadores diminui significativamente, contribuindo para a sobrevivência da espécie. No entanto, a intensidade da fidelidade ao local varia entre as espécies. Enquanto baleias-jubarte, baleias-franca e elefantes-marinhos demonstram alta fidelidade às áreas de reprodução, espécies como golfinhos oceânicos e focas-caranguejeiras exibem comportamentos mais flexíveis e oportunistas.

O grande desafio surge quando esses ecossistemas tradicionais sofrem alterações abruptas, impulsionadas pelo aumento do nível do mar, aquecimento global e atividades humanas. Tais mudanças podem transformar ambientes que antes eram considerados seguros em armadilhas reprodutivas. Segundo Carol Braga, a deterioração desses locais pode levar a abortos espontâneos, abandono de filhotes, hipotermia e até à interrupção da ovulação em fêmeas, comprometendo a continuidade das populações.

Diante desse cenário, os especialistas concordam que a preservação das rotas migratórias, embora importante, não é suficiente. É imprescindível proteger geograficamente os berçários, que representam os locais essenciais para a reprodução e o desenvolvimento dos filhotes. Isso envolve a criação de áreas protegidas, fiscalização do tráfego marítimo, restrição de atividades pesqueiras, redução da poluição e monitoramento contínuo das populações.

Luís Felipe Tuon reforça a necessidade de ações específicas nesses pontos estratégicos, destacando que a proteção do local em si é a medida mais eficaz. Ele cita a criação de Áreas de Proteção Ambiental (APAs) marinhas sazonais, como o Parque Nacional dos Abrolhos, limites de velocidade e distância para embarcações durante os períodos de reprodução, além da proibição de exploração de petróleo e de atividades sísmicas que gerem ruído nesses períodos. Segundo ele, se esses berçários forem destruídos, proteger as rotas migratórias será inútil, pois os animais não possuem um “plano B”. A memória dessas áreas está gravada na espécie há milhares de gerações, e sua perda compromete a continuidade reprodutiva das populações de mamíferos marinhos.

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