Pesquisadores da Universidade de Massachusetts revelaram que a abstinência de álcool, embora seja uma estratégia comum para melhorar a saúde de indivíduos com transtorno por uso de substâncias, pode, em certos casos, elevar a probabilidade de recaída. A investigação, conduzida com camundongos, aponta que alterações na atividade cerebral durante o período de abstinência podem gerar um aumento no desejo de consumir álcool, especialmente em indivíduos vulneráveis.
O estudo, liderado pelos professores Danny G. Winder e Marie Doyle, analisou o comportamento de camundongos que tiveram acesso voluntário ao álcool por um longo período, seguido de uma fase de abstinência forçada. Os resultados mostraram que um subgrupo desses animais desenvolveu resistência à aversão ao álcool amargo, ou seja, continuaram a ingerir a substância mesmo quando ela foi adulterada com quinina, uma substância amarga utilizada para desencorajar o consumo. Além disso, esses camundongos consumiram quantidades ainda maiores do álcool adulterado em comparação com aqueles que não passaram pelo período de abstinência, indicando que a abstinência pode gerar desafios físicos que favorecem a recaída.
A pesquisa também focalizou a atividade de células específicas no cérebro, particularmente no núcleo do leito da estria terminal, conhecido como BNST. Essa região cerebral, já associada a sintomas do transtorno por uso de álcool, como ansiedade e depressão, mostrou-se altamente ativa em camundongos abstinentes ao serem expostos ao ambiente onde o álcool anteriormente estava disponível. Os animais que desenvolveram preferência pelo álcool amargo apresentaram mais do que o dobro da atividade nessa área cerebral em comparação com os que não passaram por abstinência forçada. Curiosamente, essa atividade foi detectada mesmo antes de os camundongos terem acesso ao álcool, sugerindo que a análise do funcionamento do BNST poderia servir como um possível método de identificar indivíduos em maior risco de recaída.
A relevância do estudo é significativa, uma vez que o uso indevido de álcool constitui um dos principais desafios de saúde pública mundial. Nos Estados Unidos, por exemplo, as mortes relacionadas ao consumo de álcool em 2024 foram 4,5 vezes superiores às mortes atribuídas aos opioides, evidenciando a gravidade do problema. Apesar de existirem tratamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) para o transtorno, a prevalência da condição continua alta, com mais de 80% da população adulta consumindo álcool em algum momento da vida e cerca de 10% desenvolvendo transtorno, o que equivale a aproximadamente 30 milhões de americanos que necessitam de assistência especializada.
Contudo, há dificuldades na identificação precoce de indivíduos mais vulneráveis, uma vez que os profissionais de saúde ainda enfrentam limitações na previsão de quem precisará de tratamento. Os números de diagnósticos de transtorno por uso de álcool têm crescido de forma consistente, quase dobrando desde 1999, reforçando a necessidade de desenvolver estratégias mais eficazes para detectar e prevenir recaídas.
Apesar dos avanços, ainda há lacunas no entendimento do papel exato do BNST no comportamento relacionado ao consumo de álcool. Não se sabe ao certo o que desencadeia o aumento de sua atividade ou quais populações específicas de células nesse núcleo cerebral estão envolvidas nesse processo. Obter essas respostas é fundamental para a identificação de novos alvos terapêuticos.
Como próximos passos, os pesquisadores utilizam ferramentas avançadas de neurociência para manipular a atividade de neurônios específicos no cérebro de camundongos, buscando compreender melhor o papel do BNST no consumo de álcool e na resistência à abstinência. Além disso, a colega Jennifer Blackford investiga a atividade dessa região cerebral em humanos, especialmente em pessoas que estão no início da abstinência, com o objetivo de verificar se os achados em animais podem ser aplicados à prática clínica. Caso resultados semelhantes sejam confirmados, o BNST poderá se tornar uma ferramenta de triagem para identificar indivíduos com maior risco de recaída, contribuindo para estratégias de intervenção mais eficazes.









