Um estudo publicado na segunda-feira (26) na revista científica Plants, People, Planet ajudou a resolver uma confusão que se estendia há 245 anos envolvendo fungos do gênero Ganoderma. Os pesquisadores conseguiram identificar com maior precisão o Ganoderma lucidum, espécie frequentemente associada a propriedades medicinais, e demonstraram que muitos trabalhos científicos e produtos atribuídos a ela podem, na realidade, envolver outra espécie, o Ganoderma lingzhi.
Fungos desse gênero despertam interesse científico porque produzem compostos bioativos, como beta-glucanos e triterpenoides. Essas substâncias são investigadas por seus possíveis efeitos biológicos e algumas já apresentaram resultados promissores em estudos com células tumorais cerebrais em ratos.
A dificuldade está no fato de que o G. lucidum e o G. lingzhi são parecidos visualmente. Além disso, os nomes populares e científicos usados para identificar esses organismos foram aplicados de maneira inconsistente ao longo do tempo. Com isso, nem sempre é possível saber com segurança qual espécie foi utilizada em uma determinada pesquisa ou na fabricação de um produto.
A confusão não representa apenas um problema acadêmico. A identificação incorreta também afeta o controle de qualidade de itens comercializados, especialmente no setor da medicina tradicional chinesa, estimado em cerca de US$ 271,14 bilhões. Saber exatamente qual fungo está presente em um produto é essencial porque espécies diferentes podem apresentar mudanças químicas e produzir compostos distintos.
A situação pode ser comparada, em termos de classificação biológica, ao uso de um mesmo estudo para analisar simultaneamente seres humanos e orangotangos. Embora os dois pertençam à família dos Hominídeos, milhões de anos de evolução fizeram com que se tornassem organismos diferentes e passassem a integrar gêneros distintos. No caso dos fungos, as semelhanças físicas podem dificultar a separação visual, mas não eliminam as diferenças evolutivas e químicas entre as espécies.
Uma referência perdida por mais de dois séculos
A origem do problema remonta a 1781, quando o botânico William Curtis descreveu o fungo que hoje é conhecido como Ganoderma lucidum. Na época, porém, ele utilizou outro nome científico. A descrição foi acompanhada de um espécime-tipo, material biológico usado como referência para reconhecer uma espécie.
O exemplar original não sobreviveu. Durante séculos, restou apenas uma ilustração, o que impediu que os pesquisadores realizassem análises diretas do material usado por Curtis. A falta dessa referência confiável favoreceu a aplicação do nome G. lucidum a diferentes fungos medicinais do gênero Ganoderma.
O nome também passou a ser empregado para organismos que tinham aparência semelhante à da espécie europeia, mas que pertenciam a linhagens evolutivas diferentes. Como consequência, descrições de espécies, estudos científicos e informações sobre propriedades medicinais acumularam inconsistências ao longo de mais de 240 anos.
Um avanço decisivo ocorreu em abril de 2025, quando Viktor Papp, da Universidade Húngara de Agricultura e Ciências da Vida, na Hungria, examinou coleções históricas do fungário da instituição. Durante a investigação, ele encontrou um fungo que havia sido identificado de forma incorreta nos registros da coleção.
O exemplar tinha sido coletado em uma aveleira nas proximidades de Londres e correspondia quase perfeitamente à descrição original de William Curtis. A descoberta forneceu à equipe material biológico para obter informações genéticas importantes sobre a espécie.
Análise genética separou as espécies
Os pesquisadores sequenciaram o DNA do fungo e usaram os dados como referência para compará-lo com outras sequências genéticas disponíveis publicamente e atribuídas ao G. lucidum. A análise permitiu estabelecer uma distinção mais precisa entre os dois organismos.
Os resultados indicaram ainda que G. lucidum e G. lingzhi divergiram evolutivamente há pelo menos 16 milhões de anos. A distância reforça que as espécies não devem ser tratadas como equivalentes apenas porque apresentam aparência semelhante.
O estudo também identificou limitações no chamado código de barras de DNA, técnica que utiliza pequenos fragmentos do material genético para diferenciar espécies. Das 1.130 sequências públicas potencialmente atribuídas ao G. lucidum, somente 149 puderam ser identificadas com precisão como pertencentes à espécie.
Para os autores, o resultado mostra que um único fragmento genético pode não ser suficiente para separar organismos tão parecidos. Eles defendem a combinação de vários fragmentos do genoma com modelos evolutivos, estratégia que pode produzir relações de parentesco mais confiáveis.
A análise do genoma completo também pode contribuir para o entendimento da biologia dos fungos e para a identificação de compostos com potencial medicinal. No entanto, ao comparar o novo material de referência com genomas completos disponíveis e atribuídos ao G. lucidum, os cientistas constataram que nenhum deles pertencia de fato à espécie europeia.
A identificação correta é, portanto, fundamental para determinar quais fungos produzem determinados compostos e quais efeitos podem ser associados a cada um. No caso do G. lingzhi, o histórico de uso na medicina tradicional e o interesse econômico do mercado reforçam a necessidade de pesquisas capazes de separar evidências científicas de erros de identificação.








