Pesquisadores do Albert Einstein College of Medicine, nos Estados Unidos, identificaram um mecanismo que explica por que as células senescentes, popularmente conhecidas como “células zumbi”, tornam-se mais difíceis de serem eliminadas pelo organismo à medida que envelhecemos. Os resultados, publicados na revista Nature Aging em 5 de outubro, sugerem que a diminuição da atividade de um processo de reciclagem celular chamado autofagia mediada por chaperonas (CMA) está relacionada ao acúmulo dessas células e ao agravamento de doenças relacionadas ao envelhecimento.
A senescência celular é uma resposta natural do organismo a danos em células específicas, interrompendo sua capacidade de se dividir. Essa estratégia atua como uma defesa contra a proliferação descontrolada de células danificadas, prevenindo o desenvolvimento de câncer. No entanto, as células senescentes permanecem metabolicamente ativas, podendo liberar substâncias que promovem inflamação e alteram o comportamento de células vizinhas, contribuindo para o surgimento de doenças relacionadas ao envelhecimento, como fibrose e doenças pulmonares.
Normalmente, o sistema imunológico, especialmente os macrófagos, desempenha papel fundamental na remoção dessas células por meio de um processo chamado fagocitose. Contudo, com o avanço da idade, esse sistema de limpeza parece perder eficiência, dificultando a eliminação das células “zumbis”. A equipe liderada pela pesquisadora Ana Maria Cuervo investigou especificamente o papel da CMA, um mecanismo celular de reciclagem que identifica e degrada proteínas danificadas ou desnecessárias, utilizando proteínas chamadas chaperonas para transportar essas proteínas até o seu descarte.
Estudos anteriores já indicavam que a atividade da CMA diminui com o envelhecimento. Para aprofundar essa hipótese, os cientistas realizaram experimentos em camundongos geneticamente modificados para impedir que seus macrófagos produzissem CMA. Esses animais apresentaram maior acúmulo de células senescentes e cicatrização mais lenta após ferimentos, evidenciando a importância da CMA na eliminação dessas células pelo sistema imunológico.
A pesquisa também comparou células de camundongos jovens e idosos, induzidas à senescência em laboratório. Nos animais jovens, a atividade da CMA aumentou quando as células se tornaram senescentes, enquanto nos idosos, essa resposta foi significativamente reduzida. Como consequência, proteínas que deveriam ser degradadas não o eram, levando ao aumento de secreções que favorecem a senescência de células saudáveis próximas e dificultando o reconhecimento e a remoção pelas células de defesa.
Além disso, os macrófagos de animais idosos demonstraram menor atividade de CMA e capacidade reduzida de fagocitose, reforçando a hipótese de um ciclo vicioso: o envelhecimento diminui a reciclagem celular, aumenta o acúmulo de células “zumbis” e reduz a eficiência do sistema imunológico na sua eliminação.
Diante desses achados, a equipe desenvolveu uma molécula denominada CA77.1, capaz de aumentar a atividade da CMA. Quando administrada a camundongos idosos por via oral durante cinco meses, essa substância reduziu o acúmulo de células senescentes, sinais de inflamação e fibrose em diversos órgãos. Experimentos com macrófagos isolados também demonstraram que o tratamento restaurou sua capacidade de englobar partículas, semelhante ao desempenho de células de animais jovens.
Para avaliar a relevância clínica, os pesquisadores analisaram amostras de tecido pulmonar de pacientes com fibrose pulmonar idiopática (FPI), uma doença progressiva caracterizada pela substituição do tecido pulmonar por tecido cicatricial. Essas amostras apresentaram redução significativa na atividade da CMA, o que reforça a hipótese de que a diminuição desse mecanismo contribui para o desenvolvimento da doença. Testes em modelos animais de fibrose pulmonar indicaram que o tratamento com CA77.1 também reduziu a gravidade da fibrose, além de diminuir sinais de senescência e inflamação.
Embora os resultados sejam promissores, os autores ressaltam que o estudo foi realizado em modelos animais e em tecidos humanos de forma observacional. Ainda são necessários estudos adicionais para determinar se a ativação da CMA é segura e eficaz em seres humanos, além de avaliar possíveis aplicações clínicas e o impacto de tratamentos prolongados.
Para Ana Maria Cuervo, esses achados representam uma mudança na abordagem de combate às células senescentes, sugerindo que, em vez de eliminá-las diretamente com medicamentos específicos, seria possível estimular o próprio sistema imunológico a reconhecê-las e removê-las de forma mais natural e eficiente. Essa estratégia, se comprovada em estudos futuros, pode abrir novos caminhos para o tratamento de doenças relacionadas ao envelhecimento, como fibrose e outras condições degenerativas.








