A dificuldade enfrentada por astronautas para evacuar durante missões espaciais é resultado de uma combinação de fatores relacionados à microgravidade, à alimentação desidratada e à ausência de fibras na dieta. Pesquisadores da NASA, agência espacial americana, em parceria com a Universidade de Copenhague, na Dinamarca, realizaram um estudo aprofundado analisando 52 amostras sanguíneas de tripulantes espaciais. Os resultados, publicados na revista científica Nature Communications em 29 de junho, revelam que as mudanças no funcionamento do intestino ocorrem de forma rápida após a entrada na microgravidade, levando a problemas gastrointestinais que podem afetar a saúde geral dos astronautas.
A questão da evacuação no espaço sempre foi considerada um desafio, muitas vezes associada a dificuldades e desconfortos, mas até então as causas precisas permaneciam pouco esclarecidas. A pesquisa mostrou que, enquanto a fase inicial da digestão, que envolve o esôfago e o estômago, é pouco afetada pela ausência de gravidade — já que esses processos dependem principalmente da ação muscular —, a movimentação do conteúdo intestinal sofre alterações significativas na microgravidade. Sem a força gravitacional, o alimento e os fluidos corporais tendem a redistribuir-se de forma irregular, dificultando a passagem normal dos resíduos.
Um fenômeno comum entre os astronautas é a ocorrência de arrotos úmidos, uma mistura de ar, líquidos e partículas de alimentos que se formam devido à dificuldade do estômago em manter seu conteúdo no lugar. Além disso, a ausência de gravidade interfere na velocidade do trânsito intestinal, contribuindo para a lentidão na passagem dos alimentos pelo intestino. Como consequência, o organismo passa a fermentar proteínas de maneira mais intensa do que na Terra, um processo que ocorre quando as bactérias intestinais começam a decompor as proteínas em vez das fibras, que já foram consumidas na dieta. Essa fermentação proteica é comum em muitas pessoas ao redor do mundo, mas na microgravidade ela se intensifica, aumentando o risco de problemas de saúde.
Segundo Giorgia La Barbera, pesquisadora da Universidade de Copenhague envolvida no estudo, as análises indicam que as bactérias intestinais começam a fermentar proteínas de forma excessiva poucas semanas após o início da missão espacial, e esse padrão persiste até o retorno dos astronautas à Terra. Essa alteração no microbioma intestinal pode estar relacionada a diversas complicações, incluindo danos renais, alterações de humor e dificuldades de concentração, além do desconforto gastrointestinal.
Outro aspecto importante do estudo foi a análise dos metabólitos sanguíneos dos tripulantes. Os metabólitos são pequenas moléculas que circulam no sangue e refletem o funcionamento do metabolismo corporal. Através dessas partículas, os pesquisadores podem identificar possíveis efeitos adversos do ambiente espacial na saúde, como o aumento do risco de danos renais, além de alterações no humor e na capacidade cognitiva. Essas descobertas reforçam a importância de compreender como a digestão e o microbioma intestinal influenciam não apenas o sistema gastrointestinal, mas também o bem-estar geral dos astronautas, incluindo aspectos cognitivos e emocionais.
A pesquisa evidencia que os efeitos da microgravidade vão além do simples desconforto gastrointestinal, podendo afetar de forma sistêmica o organismo humano. Compreender esses processos é fundamental para melhorar as condições de saúde durante as missões espaciais de longa duração e desenvolver estratégias que minimizem os impactos da microgravidade na microbiota intestinal e na saúde geral dos tripulantes.







