Uma pesquisa científica de mais de 60 anos de duração, que monitora marmotas-de-barriga-amarela no Colorado, conseguiu evitar o encerramento graças a uma estratégia inovadora de arrecadação de recursos. Após sofrer cortes de financiamento relacionados às políticas do governo dos Estados Unidos durante a administração de Donald Trump, os responsáveis pelo projeto buscaram alternativas não convencionais para garantir a continuidade do estudo, que é considerado um dos mais longos do mundo na área de mamíferos.
O projeto, conhecido como Rocky Mountain Biological Laboratory Marmot Project, acompanha o comportamento, reprodução, evolução, fisiologia e dinâmica populacional de marmotas selvagens desde 1962. Seus principais pesquisadores, Daniel Blumstein, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), e Julien Martin, da Universidade de Ottawa, no Canadá, enfrentaram dificuldades financeiras que ameaçaram a continuidade do acompanhamento de longo prazo.
A solução inicialmente proposta envolveu a criação de uma conta no OnlyFans, uma plataforma conhecida principalmente por seu conteúdo adulto, mas que, neste caso, foi utilizada de forma completamente diferente. A iniciativa, batizada de OnlyMarms, consistia na publicação de imagens das marmotas em seu habitat natural — correndo por áreas rochosas, entrando em tocas e vivendo suas rotinas, sem qualquer conteúdo de natureza sexual. A estratégia conseguiu arrecadar aproximadamente US$ 6 mil, o equivalente a cerca de R$ 30 mil na cotação atual, sendo que cerca de 20% desse valor ficou com a plataforma. Contudo, esse montante não foi suficiente para sustentar o projeto por muito tempo.
Diante da insuficiência dos recursos obtidos pelo OnlyFans, uma nova ideia surgiu após a atenção da mídia ao caso. Pesquisadores receberam uma série de mensagens suspeitas, que pareciam tentativas de golpes virtuais. Ao analisá-las com mais atenção, descobriram que um grupo anônimo de negociadores de criptomoedas havia criado uma memecoin chamada $OnlyMarms, com o objetivo de captar doações externas ao ambiente da plataforma. Inspirada na cultura de memes e na linguagem da internet, a moeda digital conseguiu arrecadar mais de US$ 88 mil (cerca de R$ 450 mil) em apenas duas semanas, conforme reporta o jornal The Guardian.
A criptomoeda oferece uma estrutura de taxas de transação, chamadas de “taxas de criação”, que geram receita para os pesquisadores a cada movimentação realizada com a moeda. Segundo Julien Martin, esses recursos já somam pelo menos US$ 120 mil (aproximadamente R$ 618 mil), que permanecem em uma moeda estável, protegida da volatilidade do mercado financeiro. Todo o valor arrecadado por meio dessas taxas é destinado exclusivamente ao financiamento do projeto, incluindo salários de pesquisadores, estudantes e demais colaboradores, sem qualquer participação dos criadores ou investidores da criptomoeda.
Apesar do sucesso momentâneo, os pesquisadores reconhecem que estratégias como OnlyFans e memecoins não representam uma solução definitiva para o problema de financiamento de estudos científicos de longa duração. Entretanto, a arrecadação emergencial conseguiu garantir pelo menos mais um ano de continuidade ao estudo, que monitora atualmente a 11ª geração de marmotas. Os dados coletados até agora indicam que as mudanças ambientais, como o aumento de temperaturas e a redução de cobertura de neve no Colorado, têm impacto direto na saúde e na sobrevivência dos animais. Por exemplo, as marmotas têm aumentado de massa corporal devido a verões mais longos, mas temperaturas mais altas e menos neve também resultaram em mortalidade recorde, uma vez que a cobertura de neve funciona como uma camada de isolamento durante a hibernação.
Este episódio evidencia a criatividade e a adaptabilidade dos cientistas diante de dificuldades financeiras, embora reforçe a necessidade de fontes de financiamento mais estáveis para estudos de longo prazo. Por ora, a combinação de ações pouco convencionais, como a utilização de plataformas digitais e criptomoedas, permitiu que a pesquisa pudesse continuar, contribuindo para o entendimento do impacto das mudanças climáticas na fauna selvagem.







