Pesquisadores estão utilizando um navio romano naufragado há aproximadamente 2.2 mil anos para reconstruir aspectos da tecnologia naval antiga e traçar a trajetória da embarcação. O navio, conhecido como Ilovik-Paržine 1, foi descoberto em 2016 na costa da atual Croácia, no Mar Adriático, e tinha cerca de 21 metros de comprimento. Desde então, diferentes equipes de estudo têm analisado seus restos, mas uma abordagem inovadora realizada por cientistas franceses e croatas revelou detalhes inéditos por meio da análise de pólen preservado no revestimento impermeabilizante do casco.
O estudo, publicado na revista Frontiers in Materials em abril, destacou a importância dos materiais orgânicos utilizados na impermeabilização de embarcações antigas, muitas vezes negligenciados na arqueologia. Segundo Armelle Charrié-Duhaut, arqueometrista da Universidade de Estrasburgo e primeira autora do artigo, esses materiais representam testemunhos valiosos das tecnologias navais do passado, pois desempenhavam papel fundamental na navegação marítima e fluvial.
A análise revelou que o revestimento do Ilovik-Paržine 1 era composto principalmente por piche, uma resina derivada de árvores coníferas como pinheiros, aquecido e aplicado sobre o casco para impedir a entrada de água. Curiosamente, uma das amostras apresentou uma mistura de piche com cera de abelha, uma formulação antiga conhecida como zopissa, que conferia maior flexibilidade ao revestimento e facilitava sua aplicação em altas temperaturas. A identificação molecular dessas substâncias indicou que o piche tinha origem em coníferas, reforçando o entendimento sobre as técnicas de construção naval da época.
A presença de pólen nas amostras forneceu uma espécie de mapa ambiental do passado. Como o material era pegajoso, capturou grãos de pólen de diversas plantas, incluindo azinheiras, pinheiros, oliveiras, aveleiras, amieiros e freixos, indicando que o revestimento foi elaborado a partir de materiais provenientes de diferentes regiões costeiras e vales do Mediterrâneo e do Adriático. A detecção de pólen de árvores como abeto e faia, comuns em áreas montanhosas próximas à Ístria e Dalmácia, sugere que o casco passou por processos de reparo ou reforço em diferentes locais ao longo de sua vida útil, não havendo uma única origem para o revestimento.
A análise estatística das amostras revelou a existência de quatro a cinco camadas distintas de revestimento, indicando múltiplas intervenções de manutenção ao longo do tempo. As camadas centrais e a da popa apresentavam um mesmo tipo de material, enquanto três lotes diferentes foram identificados na proa, o que sugere que o navio foi reparado em diferentes portos ou estaleiros. Essas conclusões corroboram hipóteses anteriores de que o navio foi construído na região de Brindisi, na costa sudeste da Itália, com algumas camadas de revestimento possivelmente aplicadas em outros pontos do Mediterrâneo, incluindo o nordeste do Adriático.
A pesquisa também oferece insights sobre as práticas de manutenção de embarcações na antiguidade. A presença de múltiplas camadas de revestimento indica que os antigos realizavam reparos periódicos para garantir a navegabilidade do navio, especialmente em longas viagens. A preservação do piche foi fundamental para essa análise, pois além de proteger a madeira contra a ação do mar, preservou evidências ambientais, como o pólen, que ajudam a entender os ambientes por onde o navio passou.
Segundo Charrié-Duhaut, embora seja amplamente reconhecido que embarcações de madeira necessitam de manutenção constante, comprovar arqueologicamente essa prática é desafiador devido à deterioração dos materiais orgânicos ao longo do tempo. Nesse contexto, a análise molecular do piche e do pólen se mostrou uma ferramenta eficaz para identificar diferentes revestimentos e reconstruir a história de manutenção e circulação do navio, oferecendo uma visão mais detalhada das técnicas e rotas marítimas do passado.








