A preferência pelo uso da mão direita, um traço comum entre os humanos, pode ter origens que remontam a um passado muito mais distante do que se imaginava. Um estudo recente divulgado na revista Scientific Reports, na última quinta-feira (9), trouxe à luz a evidência mais antiga conhecida de lateralização comportamental, identificada em fósseis de um organismo marinho que viveu há cerca de 550 milhões de anos. A pesquisa se concentrou na análise da Spriggina floundersi, um ser do período Ediacarano, e revelou que esse animal apresentava uma notável preferência por curvar o corpo para a direita.
A descoberta foi realizada por uma equipe de pesquisadores que examinou mais de 100 fósseis da Spriggina encontrados no sul da Austrália. Dentre esses, 76 exemplares foram analisados com precisão por meio de fotografias, moldes e escaneamentos em três dimensões. Os cientistas se debruçaram sobre as características morfológicas dos fósseis e notaram que a curvatura do corpo do animal indicava uma tendência a favorecer um dos lados durante seus movimentos.
Para determinar se as curvaturas observadas poderiam ser atribuídas a fatores ambientais, os pesquisadores realizaram comparações entre fósseis preservados lado a lado. A análise revelou que os exemplares apresentavam orientações distintas, o que levou a equipe a concluir que o padrão de curvatura era compatível com movimentos autônomos do próprio animal, e não resultante de influências externas.
A pesquisa sugere que a lateralização comportamental, uma característica que implica a preferência por um lado do corpo, já estava presente entre alguns dos primeiros animais com simetria bilateral. Os autores do estudo ressaltam, no entanto, que essa descoberta não implica que a Spriggina seja um ancestral direto dos humanos ou que explique a prevalência da destreçura entre a população atual. O que se destaca é a evidência de que a lateralização surgiu em um estágio muito precoce da evolução animal, muito antes do surgimento das espécies modernas.
Além disso, os pesquisadores indicam que a Spriggina possuía uma musculatura que lhe permitia realizar movimentos coordenados, assim como algum nível de controle nervoso, embora os tecidos moles não sejam preservados nos fósseis. Este aspecto é fundamental para entender a complexidade do comportamento motor dos primeiros animais, sugerindo que a capacidade de lateralização pode ter se desenvolvido em um contexto evolutivo mais amplo.
Entretanto, o estudo não fornece respostas definitivas sobre os motivos que levaram a Spriggina a preferir girar para a direita, nem esclarece os detalhes de como funcionava seu sistema nervoso. A pesquisa, no entanto, abre novas perspectivas sobre a evolução do comportamento animal e a origem das preferências laterais, contribuindo para um entendimento mais profundo da história evolutiva dos organismos marinhos primitivos.









