A Universidade de Harvard anunciou que irá desembolsar aproximadamente US$ 53 milhões, o equivalente a cerca de R$ 273 milhões, para encerrar ações civis movidas por familiares de doadores de corpos cujos restos mortais foram roubados e comercializados no mercado ilegal por um ex-funcionário do necrotério da instituição. A decisão foi comunicada por meio de uma carta dirigida à comunidade acadêmica pelos decanos da Faculdade de Medicina, George Q. Daley e Bernard S. Chang, na qual condenaram veementemente as ações do ex-gerente, Cedric Lodge, qualificando-as como “desprezíveis, abomináveis e uma flagrante traição aos valores da comunidade médica”.
Segundo o documento, as atitudes de Lodge não representam a postura de respeito e reverência que Harvard mantém em relação aos doadores altruístas, cuja doação de corpos é feita sem interesses pessoais. Os decanos expressaram profunda tristeza e empatia às famílias afetadas, reforçando o compromisso da universidade em lidar com a situação de forma responsável e transparente.
A controvérsia veio à tona após investigações que revelaram que, entre 2018 e 2023, restos mortais de doadores utilizados em pesquisas e aulas foram roubados e vendidos no mercado ilegal. Os processos judiciais foram movidos por 47 familiares de indivíduos cujos corpos foram doados à instituição, mas cujos restos mortais teriam sido maltratados e comercializados por Lodge, que foi condenado por esses crimes em 2023. A acusação aponta que ele enviava partes de cadáveres, como cérebros, pele, mãos e rostos, para compradores na Pensilvânia e outros estados americanos, em esquema que durou pelo menos cinco anos.
Lodge, que atualmente cumpre uma pena de oito anos de prisão, admitiu ter removido partes dos corpos antes da cremação. Em um episódio revelador, ele teria fornecido pele humana a um comprador interessado em transformá-la em couro para encadernar um livro. Sua esposa, Denise Lodge, foi condenada a pouco mais de um ano de prisão por ajudar o marido a cometer os crimes. Outras seis pessoas envolvidas também se declararam culpadas e receberam condenações, conforme informações da própria Harvard.
A universidade afirmou que tentou identificar as famílias dos doadores, cruzando registros de doações com dados de cremação realizados durante o período em que Lodge atuou na instituição. No entanto, não foi possível determinar com exatidão quais restos mortais foram roubados, uma vez que as doações ocorreram entre janeiro de 2018 e março de 2023.
Além da indenização, Harvard comprometeu-se a fornecer às famílias uma declaração condenando os crimes e um resumo das medidas adotadas para aprimorar o Programa de Doação de Cadáveres. Como parte das ações de reparação, a instituição planeja criar, a partir do próximo ano, uma bolsa de estudos anual destinada a estudantes de medicina em homenagem aos doadores. A medida visa fortalecer o compromisso ético e de transparência da universidade no manejo de doações e na prevenção de futuras irregularidades.









