Um estudo recente divulgado na revista Geophysical Research Letters nesta quinta-feira (10) indica que o planeta Mercúrio pode ter sofrido uma contração de até 23 quilômetros em seu diâmetro, um valor significativamente superior às estimativas anteriores, que variavam entre 4 e 16 quilômetros. A pesquisa, liderada pelo cientista planetário Gaku Nishiyama, do Instituto de Pesquisa Espacial do Centro Aeroespacial Alemão (DLR), sugere que parte das marcas de encolhimento do planeta estão ocultas sob detritos resultantes de impactos de asteroides, dificultando a observação direta dessas estruturas na superfície.
Mercúrio, assim como outros planetas rochosos do Sistema Solar, formou-se há aproximadamente 4,5 bilhões de anos a partir de colisões entre rochas e corpos menores que orbitavam o Sol. Esses impactos geraram uma quantidade significativa de calor, que o planeta vem perdendo ao longo de sua história, levando ao seu resfriamento e subsequente encolhimento. Esse processo de contração provoca deformações na crosta, formando estruturas tectônicas como escarpas e cristas, que funcionam como registros geológicos do fenômeno.
A compreensão do grau de contração de Mercúrio é fundamental para entender as características de seu interior. Segundo Nishiyama, uma maior contração indicaria um núcleo metálico maior, com menor quantidade de elementos leves como o silício, ou uma temperatura inicial mais elevada na formação do planeta. Essas informações são essenciais para refinar modelos sobre a composição e a evolução do planeta.
No entanto, identificar as marcas dessa contração na superfície de Mercúrio apresenta desafios. Como o resfriamento deveria provocar uma contração relativamente uniforme, as evidências desse processo deveriam estar distribuídas de forma semelhante por toda a superfície. Contudo, novos impactos que formaram crateras, depressões e espalharam detritos dificultam a visualização dessas marcas, especialmente em regiões mais afetadas por esses eventos. Para solucionar essa questão, os pesquisadores combinaram mapas anteriores das evidências geológicas de contração com novos mapas que analisaram a rugosidade de toda a superfície do planeta.
A análise revelou que as áreas mais irregulares apresentam menos sinais visíveis de contração, levando à hipótese de que os detritos produzidos pelos impactos estariam encobrindo essas estruturas. Nishiyama explica que esse processo assemelha-se a uma camada de cascalho recém-colocada sobre uma estrada, que pode esconder sulcos e marcas anteriores. Assim, a equipe utilizou as regiões menos afetadas por impactos para estimar o grau de encolhimento global de Mercúrio, incluindo as áreas onde as marcas tectônicas estariam ocultas sob os detritos.
Com base nesses métodos, os cientistas estimam que Mercúrio tenha encolhido até 23 quilômetros ao longo de sua história, um número maior do que as estimativas anteriores. Essa nova cifra representa uma contração de até 30% em relação às previsões anteriores, que variavam entre 4 e 16 quilômetros. Nishiyama considera o valor de 30% surpreendente, mas acredita que a estimativa revisada está mais alinhada às previsões físicas sobre o resfriamento planetário.
Apesar do avanço, o estudo reconhece que os dados disponíveis até o momento, obtidos principalmente pela missão MESSENGER da NASA, encerrada em 2015, limitam a precisão das medições às estruturas com mais de aproximadamente 5 quilômetros de diâmetro. Para superar essa limitação, a equipe espera que, a partir de novembro deste ano, a missão BepiColombo, uma iniciativa conjunta da Agência Espacial Europeia e da Agência Espacial Italiana, forneça imagens de maior resolução da superfície de Mercúrio. Nishiyama, integrante da equipe científica da missão, destaca que as novas imagens permitirão uma análise mais detalhada de escarpas, cristas e crateras de impacto, possibilitando a identificação de marcas adicionais do encolhimento do planeta e aprofundando o entendimento de sua evolução geológica.








