A OpenAI, empresa responsável pelo desenvolvimento do ChatGPT, anunciou na última terça-feira, dia 6 de novembro, a publicação de um conjunto de 722 artigos científicos produzidos integralmente por inteligência artificial. Esses documentos, disponibilizados no repositório de software GitHub — amplamente utilizado por profissionais das áreas de computação e ciências exatas — relatam avanços em 372 problemas matemáticos considerados complexos. Segundo a organização, o projeto utilizou modelos de IA ainda não divulgados ao público para abordar cerca de 4 mil questões distintas, das quais, após processos de revisão e critérios de citação, foram selecionados os mais de 300 resultados considerados relevantes. A iniciativa evidencia o potencial de tecnologia de ponta na resolução de problemas científicos, embora tenha gerado debates e controvérsias entre especialistas.
A controvérsia na comunidade científica começou há aproximadamente um mês, em 8 de setembro, quando a OpenAI anunciou ter descrito uma solução para a Equação de Navier-Stokes. Essa equação, fundamental na descrição do movimento de fluidos líquidos e gasosos, é um dos cinco “Problemas do Milênio” estabelecidos pelo Instituto de Matemática Clay, uma renomada organização de pesquisa com sede no Reino Unido. A resolução de tal problema por uma IA gerou reações distintas: enquanto alguns comemoraram o avanço tecnológico, outros manifestaram preocupações quanto à legitimidade e às implicações do método. Entre os críticos, destaca-se o matemático Tristan Buckmaster, da Universidade de Nova York, que iniciou uma disputa pública pelos créditos da solução. Sua insatisfação também repercutiu na comunidade internacional, levando, em 11 de novembro, à assinatura de uma declaração por 25 medalhistas Fields — considerados o equivalente ao Nobel na matemática — contrários ao uso de problemas ainda não resolvidos como métricas para avaliação de inteligência artificial.
A OpenAI defende sua postura, afirmando que o objetivo principal é fornecer ferramentas que possam auxiliar matemáticos e cientistas em suas pesquisas. Em entrevista à revista Nature, um porta-voz da empresa declarou que os modelos são avaliados com base em problemas de fronteira em diversas ciências, reforçando que a iniciativa visa ampliar o suporte tecnológico ao avanço científico. No dia 21 de setembro, a organização anunciou a resolução de outros 100 problemas adicionais, reforçando a sua atuação nesse campo. Para alguns especialistas, o avanço representa um marco na história da matemática, demonstrando a rapidez com que a tecnologia vem se tornando uma aliada dos profissionais da área. Contudo, há preocupações de que projetos em andamento possam ser prejudicados pelo lançamento dessas soluções automatizadas.
Entre as críticas, destaca-se a opinião de Melanie Matchett Wood, professora na Universidade Harvard, que afirmou à Nature que a produção de matemática por IA, ao longo do tempo, pode envolver práticas de plágio, já que muitas das resoluções não contam com a participação humana direta. Além disso, a ausência de supervisão por parte de indivíduos responsáveis pelas ações da IA levanta questionamentos sobre a responsabilização por possíveis erros ou equívocos nos resultados apresentados.
A OpenAI informou que cada um dos mais de 700 artigos publicados demandou, em média, três horas de processamento de computação e raciocínio do ChatGPT Pro. Muitas demonstrações são acompanhadas de versões escritas na linguagem Lean, que permite a verificação automática de provas matemáticas por computador. Contudo, parte dos resultados divulgados não passou por esse procedimento de validação, o que aumenta o risco de erros, problemas ou “alucinações” por parte da tecnologia. A empresa destacou que continuará deixando a avaliação dos resultados para a comunidade científica, reforçando a necessidade de uma análise coletiva.
Para esse fim, um grupo de nove matemáticos voluntários, integrantes do Advisory Group on Mathematics and Artificial Intelligence, afirmou à Nature que seu papel não é validar ou endossar os resultados, mas contribuir para uma avaliação mais ampla e colaborativa. O grupo defende que a análise deve envolver outros matemáticos, buscando garantir transparência na citação de trabalhos anteriores, na divulgação de prompts utilizados e na solicitação de resumos dos raciocínios científicos e custos computacionais envolvidos. Além disso, a OpenAI anunciou planos de depositar os resultados em repositórios acadêmicos independentes, fora do controle de laboratórios de inteligência artificial, além de estudar alternativas ao GitHub e promover workshops sobre os grandes avanços obtidos por IA, buscando maior transparência e responsabilidade na divulgação dessas inovações.









