Pesquisadores da Universidade Harvard, localizada nos Estados Unidos, criaram um aplicativo móvel voltado a facilitar a locomoção de pessoas com deficiência visual. Intitulado Mobilio, o software tem como objetivo proporcionar uma navegação mais rápida e segura, oferecendo uma alternativa às ferramentas tradicionais, como bengalas e cães-guia. A inovação foi apresentada em um estudo publicado na revista científica Nature Biomedical Engineering nesta segunda-feira, 24 de outubro de 2023.
O Mobilio combina inteligência artificial (IA) e conjuntos de áudios personalizados para fornecer instruções de direção precisas e confiáveis, além de orientar o usuário ao longo de trajetos e detectar obstáculos no caminho. As funcionalidades do aplicativo foram desenvolvidas com base em entrevistas realizadas com 112 pessoas com deficiência visual, seja ela total ou parcial, a fim de compreender suas principais necessidades e desafios diários.
Diferentemente de outros dispositivos de auxílio à locomoção, o Mobilio aproveita o uso de sensores de unidade de medição inercial, que coletam dados sobre aceleração, velocidade e orientação do corpo do usuário. Além disso, o grande diferencial do aplicativo é sua capacidade de análise de visão computacional personalizada, que processa transmissões ao vivo da câmera do celular na perspectiva de um pedestre. Essa abordagem permite que o sistema identifique, com alta precisão, calçadas, faixas de pedestres, ruas e outras superfícies transitáveis, considerando a visão do próprio usuário, o que representa um avanço significativo em relação às bases de dados públicas, geralmente capturadas por veículos automotivos e que não refletem as necessidades do pedestre.
A tecnologia de visão computacional do Mobilio foi treinada especificamente para reconhecer ambientes urbanos sob a perspectiva de quem caminha a pé, corrigindo a antiga limitação de que a infraestrutura urbana era avaliada apenas por registros de veículos. Raymond Liu, um dos pesquisadores responsáveis pelo projeto, liderou a iniciativa de treinar um modelo de segmentação semântica em imagens capturadas na perspectiva do pedestre, garantindo que o aplicativo reconheça com precisão elementos como calçadas, faixas de pedestres, ruas e obstáculos.
O acompanhamento do usuário é contínuo e, além de comandos de voz, o aplicativo emite sinais sonoros, como bipes, que indicam direções específicas, à esquerda ou à direita. Conforme o usuário caminha, o sistema monitora seu progresso e ajusta automaticamente os sons e padrões de tom, otimizando a orientação durante a locomoção.
Para avaliar sua eficácia na prática, a equipe de pesquisa recrutou 14 voluntários com deficiência visual, que realizaram percursos internos e externos com obstáculos. Os participantes foram instruídos a usar o Google Maps com navegação passo a passo e uma bengala em uma primeira etapa, e, posteriormente, a repetir os trajetos utilizando o Mobilio aliado à bengala. Os resultados demonstraram melhorias relevantes: no ambiente externo, o uso do aplicativo permitiu que os usuários completassem os percursos aproximadamente 13% mais rápido; no ambiente interno, a diminuição na quantidade de obstáculos encontrados foi de cerca de 41%. Além disso, a precisão do sistema em conduzir os usuários ao destino sem grandes erros foi considerada comparável à de um guia humano.
Raymond Liu destacou que essa fase de testes é fundamental para o desenvolvimento do projeto, pois a resposta dos usuários às novas tecnologias pode variar bastante, dada a diversidade de experiências e necessidades dentro do grupo de pessoas com deficiência visual. Os pesquisadores planejam expandir os testes para diferentes ambientes na região de Boston, buscando verificar se o sistema mantém seu desempenho em contextos mais variados e se consegue se integrar de forma natural ao cotidiano dos usuários.
O avanço do Mobilio representa uma tentativa de ampliar o acesso a ferramentas de auxílio à mobilidade, especialmente considerando que nem todas as pessoas com deficiência visual têm condições ou recursos para utilizar métodos tradicionais ou dispositivos mais sofisticados. O uso do celular, que é uma ferramenta acessível e comum, surge como uma alternativa promissora para tornar a locomoção urbana mais segura e eficiente para esse grupo.








