Uma píton-reticulada de 4,5 metros de comprimento, mantida no Zoológico de Chester, na Inglaterra, tornou-se o primeiro réptil conhecido a receber tratamento de eletroquimioterapia contra um tumor maligno, procedimento que resultou na cura do animal. A intervenção, realizada em outubro de 2025 e anunciada recentemente, demonstra avanços na medicina veterinária e abre novas possibilidades para o tratamento de câncer em animais de grande porte e répteis.
A cobra, batizada Jodie Foster, chegou ao zoológico há aproximadamente 20 anos, conforme informações da Smithsonian Magazine. Seu nome foi atribuído com base em suas iniciais de registro, “JF”, que inicialmente indicavam “fêmea juvenil” (juvenile female). Nos últimos dois anos, Jodie Foster apresentou sinais de deterioração na saúde, como perda de apetite e letargia, levando os veterinários a realizarem exames que diagnosticaram um tumor maligno na mandíbula. A remoção do tumor foi feita por cirurgia, mas, cerca de um ano após o procedimento, um novo tumor surgiu na mesma região, agravando a condição da cobra.
Devido à progressão do câncer, que dificultava sua alimentação e ameaçava sua vida, os veterinários do Zoológico de Chester decidiram por uma abordagem inovadora. Como a cirurgia convencional provavelmente não seria suficiente para eliminar o tumor recorrente, foi planejada uma combinação de cirurgia com eletroquimioterapia, procedimento que foi realizado com sucesso após uma anestesia de aproximadamente 90 minutos. Para garantir a estabilidade térmica do animal durante a operação, a equipe utilizou cobertores aquecidos e fluxo de ar quente.
Funcionamento da eletroquimioterapia
A técnica de eletroquimioterapia consiste na aplicação de pulsos elétricos curtos e intensos, que aumentam temporariamente a permeabilidade das células cancerígenas, facilitando a entrada de medicamentos quimioterápicos no tecido afetado. Essa combinação potencializa a ação do tratamento, promovendo a destruição das células tumorais de forma mais eficaz. O método, que teve início na década de 1990 para uso em humanos, também foi adaptado para a medicina veterinária, sendo empregado no tratamento de cães, gatos e outros animais.
No caso de Jodie Foster, o tamanho do réptil exigiu uma adaptação do procedimento padrão. A cobra foi acomodada sobre duas mesas cirúrgicas unidas, devido ao seu peso de aproximadamente 50 quilos e comprimento de 4,5 metros. Após a anestesia, os veterinários removeram parte da mandíbula afetada e aplicaram um medicamento quimioterápico na área residual. Em seguida, inseriram pequenos eletrodos metálicos no tecido e aplicaram pulsos elétricos, procedimento que ajuda a romper as células cancerígenas e aumenta a absorção do medicamento.
Recuperação e impacto do procedimento
Após a intervenção, Jodie Foster apresentou rápida cicatrização da ferida, retomou a alimentação normal e voltou a ganhar peso. Segundo o zoológico, o animal recuperou seu comportamento habitual, demonstrando-se vibrante e enérgico. A equipe veterinária considerou o procedimento bem-sucedido, destacando que a eletroquimioterapia é uma técnica emergente, e que esta foi a primeira vez que foi aplicada em uma cobra.
O veterinário da Universidade de Liverpool, Jose Alvarez Picornell, que auxiliou na elaboração do tratamento, afirmou que o sucesso do caso não só beneficiou Jodie Foster, mas também contribuirá com o avanço da comunidade veterinária. Ele destacou que os detalhes do procedimento serão publicados para que profissionais de todo o mundo possam estudá-lo e aprimorá-lo, ampliando as possibilidades de tratamento de tumores em répteis e outros animais que não respondem bem às cirurgias convencionais.
Este caso representa um avanço na medicina veterinária, especialmente na oncologia de répteis, e indica que a eletroquimioterapia pode se tornar uma alternativa viável para casos complexos de câncer em animais de grande porte, oferecendo esperança de cura em situações anteriormente consideradas de difícil manejo.







