No Brasil, a diversidade linguística é uma das maiores do mundo, refletindo a vasta variedade de comunidades indígenas que habitam o território nacional. Atualmente, existem mais de 400 comunidades indígenas autoidentificadas, cada uma com sua própria língua, totalizando cerca de 295 idiomas falados por aproximadamente 391 etnias, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa multiplicidade linguística representa um patrimônio cultural de valor inestimável, que enfrenta ameaças crescentes de desaparecimento devido ao declínio no número de falantes e à perda de transmissão intergeracional.
Para contribuir com a preservação e valorização dessas línguas, pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em parceria com comunidades indígenas da Amazônia, desenvolveram os Dicionários Multimídia para Línguas Indígenas. Essa iniciativa visa não apenas documentar o vocabulário das línguas ameaçadas, mas também integrar elementos visuais e sonoros que facilitam o acesso e o entendimento, consolidando uma plataforma digital acessível na plataforma do Dicionário Multimídia do Museu do Índio.
A proposta surgiu diante do cenário crítico em que muitas dessas línguas possuem poucos falantes, colocando em risco sua continuidade em poucas gerações. A ferramenta digital funciona como um registro histórico e um instrumento de fortalecimento das identidades culturais, promovendo o resgate da memória linguística e cultural dessas comunidades. Além de reunir em um espaço virtual diversos dicionários de línguas indígenas, a plataforma combina palavras escritas, traduções para o português, imagens ilustrativas e áudios de pronúncia por falantes nativos, promovendo uma experiência interativa e educativa.
Segundo Ana Vilacy Galúcio, coordenadora do projeto e pesquisadora do MPEG, a criação do dicionário multimídia busca responder a uma necessidade social de preservação linguística. Ela explica que muitas línguas indígenas no Brasil estão com sua vitalidade comprometida, e que há uma demanda crescente por parte de comunidades que desejam que seus jovens aprendam a língua ancestral. “Essa demanda foi colocada pelo cacique José Augusto Canoé, cuja língua conta com apenas três ou quatro falantes”, relata a pesquisadora.
Ana destaca ainda que, apesar de muitas línguas indígenas estarem em risco, a língua permanece viva na memória, nas tradições e no sentimento de pertencimento étnico de cada povo. Ela explica que o Brasil, por sua multiculturalidade, abriga uma vasta gama de famílias linguísticas, como as Tupí, Macro-Jê, Karibe e Aruak, entre outras, muitas das quais têm grande relevância histórica e cultural.
Para o mestrando em Letras pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Victor Rocha, os dicionários digitais representam uma ferramenta fundamental na valorização e na preservação dessas línguas. Ele ressalta que a língua é uma parte essencial da identidade das comunidades indígenas e que sua ameaça de desaparecimento muitas vezes está relacionada à falta de prestígio social. Rocha observa que, após a implementação dos dicionários, muitos membros dessas comunidades passaram a perceber a importância de suas línguas e de sua documentação, reconhecendo seu valor histórico e cultural.
Ele também destaca que o trabalho de registro realizado nos dicionários vai além da simples tradução de palavras, incluindo elementos de literatura oral, músicas, processos de criação de objetos culturais e até práticas tradicionais de cura, contribuindo para uma compreensão mais ampla e aprofundada do patrimônio indígena. Assim, a iniciativa representa um passo importante na luta pela preservação da diversidade linguística brasileira, promovendo o reconhecimento e a valorização das culturas originárias em um país marcado pela sua pluralidade.








