Pesquisadores da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, conseguiram reproduzir o efeito óptico da Taça de Licurgo, um cálice romano produzido no século 4 que apresenta cores diferentes dependendo da forma como recebe luz. A peça parece verde e opaca quando observada pela superfície, mas adquire tonalidade avermelhada quando iluminada por trás. Para recriar o fenômeno, os cientistas utilizaram apenas materiais que estavam disponíveis aos artesãos da Roma Antiga.
A Taça de Licurgo integra o acervo do Museu Britânico desde 1958 e é considerada um dos exemplos mais impressionantes da capacidade romana de trabalhar o vidro. Além do efeito visual, o cálice é decorado com uma cena da mitologia greco-romana. A representação mostra Dionísio, o deus do vinho, punindo Licurgo, rei da Trácia que se opôs ao culto da divindade, ao prendê-lo em videiras.
Nanopartículas metálicas explicam a mudança de cor
Segundo a revista Smithsonian, o fenômeno está relacionado a uma forma de nanotecnologia desenvolvida pelos antigos romanos. A hipótese é que os artesãos tenham incorporado pequenas partículas de ouro e prata ao vidro durante sua fabricação. O resultado é um material conhecido como vidro dicroico, capaz de assumir diferentes tonalidades conforme interage com a luz.
As partículas metálicas são menores do que os comprimentos de onda da luz visível. Por isso, interferem na passagem e na dispersão de determinadas cores. Quando a luz atravessa o vidro, as nanopartículas de ouro e prata bloqueiam principalmente os tons azuis e verdes, permitindo a passagem predominante das cores vermelha e laranja. Já quando a iluminação é refletida pela superfície, a dispersão produz a aparência verde opaca característica da taça.
Embora os cientistas já conhecessem a explicação para o efeito, reproduzir com precisão as cores da peça romana era uma tarefa complexa. Lisa Hollands, especialista em tecnologia do vidro da Universidade de Sheffield, trabalhou com Caroline Jackson, arqueóloga e especialista em vidros romanos da mesma universidade, para investigar uma possível receita de fabricação.
Experimentos reproduziram materiais e condições antigas
Em uma etapa inicial, as pesquisadoras utilizaram materiais modernos para criar uma base de vidro semelhante à produzida pelos romanos. Depois, Hollands realizou diversos testes, alterando os ingredientes, os tipos de forno e os níveis de oxigênio. Em alguns experimentos, também foi utilizado açúcar na composição.
Após várias tentativas, a especialista desenvolveu uma fórmula capaz de produzir de maneira consistente o efeito de mudança de cor usando somente matérias-primas que estavam disponíveis aos artesãos da Roma Antiga. Os testes mostraram ainda que pequenas diferenças no processo de fabricação podiam alterar significativamente o resultado. A posição do vidro dentro do forno, por exemplo, era suficiente para modificar sua coloração.
O vidro dicroico já havia sido recriado por cientistas na década de 1960. No mesmo período, a Nasa aperfeiçoou a produção desse material para proteger astronautas e equipamentos espaciais dos efeitos nocivos da radiação solar não filtrada. A técnica moderna, no entanto, era diferente da provável abordagem romana: pesquisadores utilizavam feixes de elétrons para vaporizar metais e depositá-los em camadas extremamente finas sobre superfícies.
Os romanos, por outro lado, provavelmente misturavam os metais diretamente ao vidro derretido. A técnica desenvolvida por Hollands se diferencia por reproduzir de forma mais precisa as tonalidades da Taça de Licurgo e por se aproximar dos materiais e métodos que poderiam ter sido empregados há cerca de 1.600 anos.
Reprodução pode contribuir para novas tecnologias
Para apresentar o resultado, os pesquisadores convidaram o artista britânico Elliot Walker a criar uma escultura com o vidro produzido pela equipe. A obra reúne referências ao mito de Licurgo e à escultura romana conhecida como Atlas Farnésio, que representa o titã Atlas sustentando um globo celeste. Na nova composição, o globo foi substituído por uma taça, em homenagem ao antigo cálice romano.
A escultura será exibida no Festival da Mente, da Universidade de Sheffield, antes de passar a integrar permanentemente o acervo do Museu do Vidro Turner, também ligado à instituição.
Apesar de a reprodução ter finalidade principalmente decorativa, os pesquisadores avaliam que o conhecimento obtido nos experimentos pode ajudar no desenvolvimento de materiais fotônicos, capazes de controlar a interação com a luz. Outra possível aplicação está no armazenamento seguro e permanente de resíduos radioativos por meio da vitrificação, processo que incorpora esses materiais ao vidro. Dessa forma, uma técnica criada por artesãos romanos pode contribuir para pesquisas e soluções tecnológicas contemporâneas.








