Décadas antes do acidente no reator 4 da usina de Chernobyl, em 1986, São Paulo já havia sido cenário de uma tragédia relacionada ao manuseio de materiais radioativos. O caso ocorreu na Usina de Santo Amaro, ligada à Orquima S.A., primeira indústria nuclear brasileira, e deixou consequências trabalhistas, ambientais e de saúde que se prolongaram por muitos anos. Por causa desse histórico, o episódio passou a ser conhecido como a “Chernobyl paulistana”, embora não tenha envolvido uma explosão.
A Orquima funcionava em um prédio de fachada cor-de-rosa na Avenida Santo Amaro. A empresa foi fundada em 1942 pelo empresário Augusto Frederico Schmidt e atuava no processamento de minerais. Mais tarde, a Usina de Santo Amaro esteve associada à Nuclemon, sigla de Nuclebrás de Monazita e Associados Ltda., empresa estatal brasileira ligada aos setores químico e nuclear.
O surgimento da companhia ocorreu em um período de expansão mundial das pesquisas nucleares. Durante a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento de tecnologias relacionadas à energia atômica avançou rapidamente e culminou nos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em 1945. Nesse contexto, o Brasil também buscou ampliar sua participação no setor e proteger o controle sobre reservas de minerais considerados estratégicos.
Naquele período, o domínio de recursos minerais radioativos era visto como essencial para o desenvolvimento científico, industrial e militar. Em 1951, o governo criou o Conselho Nacional de Pesquisas, o CNPq, com a finalidade de estimular a pesquisa científica e tecnológica. Entre as áreas de interesse estavam os estudos sobre energia nuclear e os minerais estratégicos existentes no território brasileiro.
No ano seguinte, em 1952, o governo contratou a Orquima para fazer o refinamento da monazita. Esse grupo de minerais fosfatados reúne elementos de terras raras, como cério, lantânio e neodímio, além de tório, um elemento radioativo. A matéria-prima processada pela empresa vinha de areias monazíticas retiradas de áreas do litoral, principalmente nos estados do Rio de Janeiro e da Bahia.
A Orquima desenvolveu técnicas próprias para separar o tório das areias monazíticas e produzir sais derivados desse elemento e das terras raras. Com isso, tornou-se uma das poucas indústrias brasileiras capazes de realizar o processamento químico da monazita naquele momento.
Resíduos radioativos se acumularam na usina
Com o passar do tempo, a empresa acumulou materiais radioativos em suas instalações. A situação foi agravada pelas dificuldades financeiras e pelas regras vigentes no país. A legislação brasileira restringia ao governo federal a comercialização de materiais radioativos, o que limitava as possibilidades de venda ou destinação dos resíduos. Sem compradores e sem demanda suficiente, a Orquima passou a enfrentar simultaneamente a crise econômica e o problema do armazenamento dos detritos.
O processamento da areia monazítica envolvia etapas físicas e químicas. Os produtos resultantes eram destinados a setores como eletrônica, cerâmica e metalurgia fina. Durante o tratamento, surgiam diversos compostos, entre eles a chamada “torta II”, subproduto que concentrava urânio, tório e outros elementos. Esse material também podia ser usado na obtenção de derivados, como o mesotório, igualmente radioativo.
Enquanto esses processos eram realizados, trabalhadores permaneciam em contato com substâncias perigosas. Relatos sobre as condições de trabalho indicam que não havia equipamentos de proteção adequados para todos os riscos. Luvas e óculos não faziam parte da rotina de muitos funcionários, que usavam principalmente macacões como uniforme.
Alguns empregados trabalhavam de chinelos ou utilizavam calçados comprados na própria empresa. As roupas usadas durante o expediente eram levadas para casa e lavadas junto com as peças dos demais integrantes da família. A prática levantava preocupações sobre a possibilidade de levar partículas contaminadas para fora do ambiente industrial.
Ex-funcionários associaram doenças à exposição ocupacional
Ao longo dos anos, trabalhadores passaram a relatar problemas de saúde, incluindo casos de câncer, que foram associados à exposição ocupacional. As preocupações também envolveram empregados da área administrativa e familiares dos funcionários, ampliando o alcance das discussões sobre os possíveis efeitos da atividade da usina.
O acidente com Césio-137, ocorrido em Goiânia em 1987, aumentou a atenção pública brasileira para os riscos dos materiais radioativos. O episódio reforçou o debate sobre a necessidade de cuidados no manuseio dessas substâncias e contribuiu para a adoção de medidas de monitoramento por trabalhadores e responsáveis por instalações nucleares. Essas providências, contudo, não eliminaram as preocupações relacionadas aos anos anteriores, marcados por condições de trabalho consideradas inadequadas.
A Orquima encerrou suas atividades em 1992, após décadas de funcionamento. A usina foi desativada por inviabilidade econômica, e seus empregados foram demitidos ou transferidos para outras unidades. No ano seguinte, em 1993, o prédio foi demolido. Posteriormente, o terreno foi liberado para utilização e recebeu um condomínio residencial.
Disputa por indenizações continuou após o fechamento
Mesmo depois do fim das operações, ex-funcionários continuaram relatando problemas de saúde e cobrando respostas sobre as condições a que foram submetidos. A Convenção nº 115 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT, estabelece medidas de proteção aos trabalhadores expostos a radiações ionizantes e prevê ações de vigilância da saúde ocupacional. A aplicação dessas obrigações e o acompanhamento dos antigos empregados após o encerramento da usina permaneceram entre os principais pontos da discussão.
Cerca de 160 trabalhadores foram avaliados por médicos, e aproximadamente 100 continuavam em acompanhamento. Nem todos, porém, ingressaram com ações judiciais. A partir de 2003, um grupo formado por cerca de 65 ex-funcionários da Nuclemon, empresa que já havia sido estatizada, passou a se reunir com representantes das Indústrias Nucleares do Brasil, as INB, em busca de uma solução negociada.
Os ex-trabalhadores reivindicavam indenização por danos morais e assistência médica vitalícia. O pedido incluía o pagamento de R$ 12 milhões e a conscientização sobre os impactos da contaminação por radiação. Segundo os integrantes do grupo, um terço dos funcionários inicialmente envolvidos desenvolveu câncer.
A mobilização resultou na concessão judicial de um plano de saúde. Até 2019, entretanto, 15 ex-empregados que faziam parte do grupo já haviam morrido. A disputa continuou com a participação de familiares, que deram prosseguimento a pedidos, processos e ações relacionados ao caso.
A região de Santo Amaro também permaneceu associada ao debate sobre o legado da atividade industrial. A existência de um condomínio no antigo endereço da Orquima, por si só, não permite determinar as condições ambientais atuais de toda a área. Para avaliar eventuais riscos, é necessário considerar os resultados das análises ambientais, as medidas de monitoramento e as orientações dos órgãos responsáveis.








